É extremamente difícil combater a transfobia e o racismo como cidadão, quando é a engrenagem pública que transforma identidade em indício e institucionaliza o preconceito
Sem delongas: o episódio envolvendo a inclusão indevida das deputadas Duda Salabert e Erika Hilton em um álbum de suspeitos de crime para ser usado em reconhecimentos faciais de bandidos não é um erro burocrático qualquer: é o reflexo cristalino e grave de como certas estruturas ainda operam sob lógicas enviesadas, onde o corpo dissidente vira automaticamente objeto de suspeição. Não se trata apenas de falha técnica ou desatenção administrativa, mas de um gesto que revela o quanto o olhar institucional pode estar contaminado por filtros sociais excludentes. Quando o Estado erra dessa forma, ele não erra sozinho: ele reproduz e legitima uma violência que já circula livremente na sociedade. Ele inflama o que deveria proteger.
Há, nesse tipo de ocorrência, um mecanismo perverso de deslocamento: a figura da pessoa trans, historicamente marginalizada, é convertida em alvo fácil de uma suspeita quase automática, como se sua própria existência carregasse uma marca de desvio. Isso não é casual. É o resultado de uma cultura que, incapaz de lidar com a diferença, a transforma em ameaça. O problema não está na identidade dessas pessoas, mas na incapacidade intelectual e humana do Estado.
O ocorrido é alarmante porque compromete princípios basilares: a presunção de inocência, a dignidade da pessoa e o uso responsável de instrumentos de investigação. Inserir imagens de parlamentares em um contexto criminal sem qualquer lastro probatório não apenas expõe essas pessoas a constrangimento público, mas também fragiliza a credibilidade do próprio sistema. O Estado não pode agir como vetor de difamação. Quando o faz, ultrapassa, em muito, a linha que separa autoridade de abuso.
É preciso dizer com todas as letras: não há espaço para relativização. Tratar identidade como critério de suspeição é institucionalizar o preconceito. E quando isso ocorre dentro de órgãos oficiais, o dano se multiplica, porque ganha o selo da legitimidade. A resposta não pode ser protocolar ou tímida: deve ser firme, transparente e exemplar. Não apenas para reparar o erro cometido contra Duda Salabert e Erika Hilton, mas para sinalizar, de forma inequívoca, que o Estado não pode, e não vai, suspeitar do corpo errado.
