Com todo respeito ao direito de defesa, mas ‘alto lá’! As mensagens de Geraldo Neto para companheira morta refletem anatomia de um feminicídio anunciado
Há crimes que começam muito antes do ato final. Eles germinam na linguagem, se organizam na fantasia de poder e se legitimam na repetição de uma ideia primitiva: a de que amar é possuir. Quem já viveu relacionamentos abusivos sabe… Nesse compasso, as mensagens atribuídas ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto não são apenas constrangedoras, são programáticas. Quando um homem se autoproclama “rei” e define a esposa como “submissa”, ele não está descrevendo uma relação, mas impondo um regime. Um regime íntimo, autoritário, onde o afeto é condicionado à obediência e o respeito é substituído por hierarquia.
O vocabulário do “macho alfa”, importado de uma caricatura de masculinidade, não é inofensivo. Ele funciona como um dispositivo de dominação que naturaliza o controle, disfarçando violência de cuidado e autoritarismo de proteção. Ao afirmar que “não tem atrito” quando a mulher é submissa, o que se revela não é harmonia, mas silenciamento. O conflito, inerente a qualquer relação humana, é eliminado não pela maturidade emocional, mas pela supressão de uma das partes. Trata-se de uma paz artificial, sustentada pelo medo e pela anulação da autonomia feminina.
Esse tipo de narrativa não é exceção, é padrão. E é justamente por isso que ela é tão perigosa. Ela constrói, tijolo por tijolo, a lógica que sustenta o feminicídio: quando o controle escapa, quando a mulher deixa de ocupar o lugar de objeto obediente, o homem que se entende como soberano entra em colapso. Não é a perda do amor que o move, mas a perda do domínio. O assassinato, nesses casos, não é um surto isolado, mas o desfecho coerente de uma estrutura mental que não admite igualdade.
O que está em julgamento, portanto, não é apenas um indivíduo, mas uma gramática inteira de poder que ainda encontra eco social. Enquanto expressões como “macho alfa” continuarem circulando com verniz de normalidade, estaremos apenas adiando novas tragédias. Não se trata de um desvio: é um projeto. E todo projeto que transforma mulheres em territórios a serem governados inevitavelmente desemboca em violência quando encontra resistência. Seja ele religioso, ou político.
