E descobriu que, fora da comédia de Chaves, cobrar pode virar um episódio de cadeia
Se alguém dissesse que o cobrador mais famoso da televisão latino-americana viraria personagem de um caso policial, talvez muitos pensassem tratar-se de um episódio perdido de Chaves. Afinal, durante décadas o eterno Sr. Barriga atravessou o portão da vila apenas para ouvir promessas de pagamento, tropeçar no destino e sair com mais uma pancada acidental. Nada que ameaçasse a ordem pública, no máximo, a própria dignidade.
Mas a vida real resolveu improvisar um roteiro mais extravagante. Em Luziânia, alguém aparentemente decidiu que o simpático cobrador mexicano poderia servir de avatar para exigir dívidas, algumas delas, segundo as investigações, tão imaginárias quanto os eternos planos de trabalho de Seu Madruga. O problema é que, nessa adaptação tropical, a comédia foi substituída por ameaças e intimidação.
O contraste é quase literário. No seriado, cobrar era um gesto ritualístico, acompanhado de paciência e resignação. O dono da vila aparecia, recebia uma pancada involuntária do Chaves e acabava aceitando mais um mês de atraso. Na vida real, porém, a encenação ganhou contornos bem menos pitorescos, ou não.
Na Tv, apesar das dívidas eternas, ninguém corria perigo e tudo terminava em gargalhada. Já fora dela, transformar o Sr. Barriga em instrumento de ameaça pelo Zap foi o tipo de roteiro que me fez, como fã da série, suspirar com ironia e perguntar, diante da realidade: afinal, quem foi que resolveu bagunçar o seriado a esse ponto?

Quem vê Alessandro Lo-Bianco falando e fofocando sobre televisão no A Tarde é Sua não imagina o grande jornalista que se esconde atrás daquele homem gentil e até um pouco tímido. O cara é fera na dissertação, na critica e na compreensão que tem da política, economia, cultura e demais assuntos que impactam nosso dia-a-dia. Dono de um texto limpo, agradável de ler e sem tergiversações, ele vai fundo nas análises sem deixar pontos não esclarecidos. Dos jornalistas atuais é um dos melhores.