O espanto não é sua candidatura, mas um país que já não distingue o folclórico do republicano
A candidatura da “Menina da Bota” me produziu um raro sentimento de perplexidade. Não porque ela esteja impedida de disputar uma eleição, não está, mas porque sua entrada na política revela o quanto o Brasil perdeu a capacidade de sentir constrangimento diante do improviso. O cargo de deputado deixou de ser visto como uma função de elevada responsabilidade institucional para se transformar em um espaço onde o exótico, por si só, já parece suficiente para despertar expectativa eleitoral.
O mais inquietante é que quase ninguém pergunta o essencial. Quais são suas ideias? Que conhecimento possui sobre orçamento público, fiscalização do Executivo ou elaboração de leis? A discussão morre antes de nascer porque a curiosidade venceu a exigência. O extraordinário passou a valer mais do que o consistente. Em uma sociedade que recompensa o inusitado acima da competência, o debate público inevitavelmente se torna raso, ainda que vestido de modernidade.
Há um sarcasmo cruel nisso tudo. O Parlamento foi concebido para reunir pessoas capazes de enfrentar os problemas mais complexos da nação, mas caminha para se tornar um catálogo de figuras que chamam atenção justamente por aquilo que nada acrescenta ao exercício do mandato. É como se a credencial política deixasse de ser o preparo e passasse a ser apenas a capacidade de provocar comentários. O currículo perdeu espaço para a curiosidade, e a República começou a disputar audiência com o algoritmo.
A “Menina da Bota” é apenas o personagem da vez. Amanhã será outro. O verdadeiro escândalo é uma cultura política que já não considera embaraçoso transformar a excentricidade em ativo eleitoral. O país que normaliza isso não empobrece apenas sua representação; empobrece sua própria ideia de democracia. Afinal, o Parlamento deveria ser o lugar onde o Brasil pensa seu futuro, não o lugar onde ele exibe sua falta de critérios.
