Todos queremos Justiça, desde que seja a nosso favor

Defendemos princípios universais até o momento em que eles contrariam nossos próprios interesses

Existe uma curiosa modalidade de justiça que se tornou bastante popular aqui nas redes: aquela que funciona perfeitamente quando condena o outro, mas precisa ser relativizada quando chega perto de nós. O mesmo comportamento que provoca discursos inflamados de indignação quando cometido pelo adversário rapidamente ganha explicações, justificativas e até aplausos quando praticado por alguém do nosso grupo. Não é exatamente que tenhamos abandonado a moral. Talvez seja pior: continuamos falando muito sobre ela, mas passamos a aplicá-la conforme a conveniência.

Basta observar as discussões políticas, as redes sociais e até as pequenas disputas do cotidiano. A regra deixou de ser regra e virou argumento. Se favorece quem admiramos, é legítima; se prejudica quem detestamos, é intolerável. O cidadão que ontem exigia respeito às instituições pode hoje comemorar quando elas atingem seu adversário. Quem defendia liberdade de expressão passa a pedir censura quando a opinião é ofensiva aos seus valores. Quem pregava tolerância descobre subitamente que existem pessoas que não merecem ser toleradas. E assim vamos construindo uma sociedade em que princípios parecem ter prazo de validade.

O problema é que essa seletividade destrói justamente aquilo que todos dizem defender. Justiça não pode ser uma espécie de torcida organizada da moralidade. Se uma conduta é errada, ela não se transforma em correta porque foi praticada por alguém de quem gostamos. Se determinada regra precisa ser respeitada, ela não pode ser descartada apenas porque, naquele momento, sua aplicação beneficia o adversário. Quando a convicção depende de quem está sendo julgado, não estamos diante de princípios: estamos diante de preferências pessoais fantasiadas de virtude.

Talvez uma das maiores crises brasileiras não seja a falta de indignação, mas o excesso dela acompanhado de uma assustadora falta de coerência. Indignamo-nos muito, mas refletimos pouco. Querem justiça, desde que ela confirme suas narrativas. Querem democracia, desde que o resultado agrade; querem liberdade, desde que ninguém use essa liberdade para contrariar. No fundo, o que estão pedindo não é Justiça.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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One thought on “Todos queremos Justiça, desde que seja a nosso favor

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