‘O Fantástico mundo de Bob’, ops… de Augusto Cury!

Drones que combatem feminicídios, algoritmos que economizam bilhões, telemedicina que resolveria o SUS e bets pagando contas. Faltou explicar que o reino da fantasia não é aqui, mas a coluna explica…

Há entrevistas eleitorais que apresentam um projeto de país. E há entrevistas que parecem apresentar o reino da fantasia. A de Augusto Cury ao Jornal Nacional pertenceu perigosamente à segunda categoria. Comecemos pelo Estado. Cury quer cortar de oito a dez ministérios porque, segundo sua lógica, o Brasil precisa de uma máquina pública mais enxuta. Ótimo. Mas, simultaneamente, quer criar estruturas para inteligência artificial e robótica que mais parece um grande lobismo para gigantes da tecnologia enriquecerem, do que ampliar brutalmente as responsabilidades do governo. É a velha mágica eleitoral: menos Estado na placa, mais Estado na prática. Um Estado mínimo que dê conta de tudo! Puro delírio num país de mais de 200 milhões de habitantes. Extinguir ministérios não significa necessariamente extinguir despesas, assim como criar uma secretaria não significa automaticamente quebrar o Tesouro. O que interessa é saber quais estruturas serão eliminadas, quais servidores serão remanejados, quais contratos desaparecerão e quanto dinheiro efetivamente será economizado. Sem isso, “vou cortar dez ministérios” é apenas uma frase que produz aplauso em quem gosta de ouvir a palavra “enxugamento”. Governar, porém, exige apresentar a tesoura e mostrar exatamente onde ela será usada.

E então entra a inteligência artificial, apresentada quase como uma espécie de milagre econômico de silício. Ela vai digitalizar o Estado, combater fraudes, aumentar a produtividade e economizar dezenas ou até centenas de bilhões. A pergunta inconveniente é: de onde virá essa economia? Antes de economizar com tecnologia, o Estado precisa comprar tecnologia, integrar sistemas, proteger bancos de dados, treinar servidores, modernizar infraestrutura e corrigir informações ruins. O Brasil possui municípios em que a administração pública ainda enfrenta dificuldades elementares de conectividade. Não existe algoritmo suficientemente sofisticado para conversar com uma prefeitura que sequer possui estrutura para alimentar corretamente o sistema. IA é ferramenta. Não é receita orçamentária. Transformá-la em uma espécie de caixa eletrônico capaz de sacar R$ 200 bilhões do desperdício público é confundir potencial tecnológico com dinheiro disponível.

Na saúde, a fantasia fica ainda mais ousada. Cury fala em levar até 80% das consultas básicas do SUS para a telemedicina. O número impressiona justamente porque parece ter saído de uma apresentação em que tudo funciona perfeitamente: o paciente tem celular, internet, câmera, sabe utilizar o aplicativo, consegue descrever o que sente e o médico consegue diagnosticar sem colocar a mão no paciente. Só esqueceram de avisar ao corpo humano que ele também deveria se digitalizar. Cury parece não pensar que vivemos a maioria de uma população idosa que tem sido isolada pelos aplicativos, deixando-as cada vez mais dependentes dos seus filhos e netos. Parece que ela quer isolar de vez 80% dos idosos do Sus, um dos maiores sistemas médicos de atendimento presencial do mundo. Como médico, esquece que há doenças que não aparecem na tela. Há pressão que precisa ser aferida, pulmão que precisa ser auscultado, ferida que precisa ser examinada, sintoma que precisa ser observado. Telemedicina é excelente quando utilizada onde faz sentido. Transformá-la em solução para quatro quintos da atenção básica é outra coisa. E quando o candidato que defende essa revolução já teve ligação empresarial com o setor de telemedicina, como embaixador de uma marca delas, a discussão não pode ser encerrada simplesmente com um “não tenho conflito”.

Na economia, aparece outra pérola: taxar bets em mais de 50% e contar com uma arrecadação bilionária como se o mercado fosse obedecer ao governo com a disciplina de uma calculadora. Não funciona assim. Se você aumenta violentamente o imposto, o comportamento dos agentes econômicos muda. Parte do mercado pode desaparecer, migrar para plataformas ilegais ou buscar mecanismos para escapar da tributação. O governo não arrecada uma porcentagem de um mercado congelado no tempo. O mercado reage. É uma regra tão antiga quanto a própria tributação. Fazer a conta “52% vezes o mercado atual” é fácil. O difícil é descobrir quanto desse mercado continuará existindo depois de receber a pancada tributária. A conta não fecha, como o balancete da venda de livros. O país quebraria em questão de meses, tão rápido quanto a perda de dinheiro de Cury em investimentos de mercado.

Também é sedutora a promessa de financiar até 10 milhões de microempresas. Afinal, quem seria contra ajudar pequenos empreendedores? Mas há uma diferença monumental entre emprestar dinheiro e criar empresas sustentáveis. Crédito não fabrica consumidor, não cria produtividade, não elimina concorrência, não ensina gestão e não impede inadimplência. E dez milhões de operações de crédito não são dez milhões de apertos de mão. Outra fantasia.

A mesma conta incompleta aparece na Previdência. Cury quer controlar o déficit sem uma nova reforma e aposta no crescimento econômico, no empreendedorismo e na produtividade. É uma esperança legítima. Mas esperança não paga benefício previdenciário. O Brasil está envelhecendo, e a Previdência possui despesas que não desaparecem porque o governo descobriu inteligência artificial. Pior: a própria automação que Cury apresenta como uma das grandes soluções econômicas pode, em determinados setores, substituir trabalhadores. A máquina aumenta a produtividade, mas não necessariamente aumenta o número de contribuintes. Não existe contradição maior do que utilizar a robotização simultaneamente como resposta para o crescimento econômico (gerando desemprego) e como argumento indireto para resolver uma conta que depende da contribuição do trabalho humano.

E há o feminicídio, onde a tecnologia chega quase como personagem de ficção científica. A mulher aperta um aplicativo, um drone sai da delegacia, chega antes da viatura e dispara um alerta contra o agressor. É uma cena excelente para uma série como Black Mirror. Na vida real, porém, talvez o agressor esteja dentro de casa, armado, talvez não haja sinal, talvez o município não tenha estrutura, talvez a viatura esteja longe, talvez a medida protetiva não esteja sendo cumprida. O drone pode chegar antes. Mas quem chega depois para prender o agressor? Segurança pública continua exigindo investigação, policiais, inteligência, estrutura, Judiciário e capacidade de execução presencial e ostensiva. A tecnologia pode melhorar tudo isso. Não pode substituir tudo isso.

Até a diplomacia ganhou um toque de rede social. Cury defende usar influenciadores e transformar a atuação externa em uma espécie de vitrine permanente do Brasil. É claro que o país precisa vender mais seus produtos e melhorar sua imagem internacional. Mas existe uma diferença entre vender um produto no Instagram e negociar a entrada desse produto em um mercado estrangeiro. Influenciador consegue vender atenção. Não consegue derrubar tarifa, negociar barreira sanitária ou assinar acordo comercial. Essa parte foi uma das mais patéticas.

O curioso é que todas essas propostas têm uma mesma estrutura psicológica: cada problema recebe uma solução tecnológica proporcionalmente espetacular. O desperdício recebe inteligência artificial. A fila do SUS recebe telemedicina. O feminicídio recebe drone. A exportação recebe influenciador. A Previdência recebe produtividade. O empreendedorismo recebe crédito. O déficit recebe imposto sobre bets. É um país em que tudo parece ter uma ferramenta esperando para ser acionada. O único elemento ausente é o imprevisto, justamente aquilo que costuma aparecer assim que uma promessa eleitoral encontra o governo de verdade. Justamente o que faz dos livros de autoajuda mais fantasia prática do que realidade.

Não se trata de dizer que Cury não possa defender inteligência artificial, telemedicina, empreendedorismo ou modernização do Estado. Deve defender. O Brasil precisa desesperadamente disso. A questão é outra: um candidato à Presidência precisa explicar não apenas o que gostaria que acontecesse, mas o que fará quando as coisas não acontecerem como previsto. E talvez seja justamente aí que esteja o maior problema da entrevista de Augusto Cury: ele oferece ao eleitor um carro elétrico maravilhoso sem mostrar onde estão as estradas, quem vai construir os postos de recarga e quem vai pagar a conta. No discurso, tudo fecha. Na planilha, talvez. Na vida real, mera fantasia.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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