Empresários tentam evitar o fim da escala 6×1 mas…

O trabalhador também tem direito de existir fora do expediente. Lucro não pode ser gerado apenas em cima do cansaço alheio

Já percebeu que qualquer ampliação do descanso é tratada como ameaça à economia, enquanto o esgotamento de milhões de trabalhadores parece um custo perfeitamente aceitável? Nessa matemática, o lucro é inegociável, mas saúde, convivência familiar e lazer são despesas inconvenientes. O trabalhador pode até ter uma vida, desde que consiga encaixá-la nas poucas horas que sobram do expediente.

Não dá mais para naturalizar a exaustão. Décadas de exploração ensinaram muita gente a confundir sofrimento com dignidade, obediência com responsabilidade e disponibilidade permanente com compromisso profissional. É uma pedagogia da submissão que transforma o cansaço em virtude e faz parecer irresponsável quem reivindica o direito de descansar. Para alguns, não basta vender a força de trabalho: é preciso entregar também a própria existência.

O argumento de que reduzir a jornada prejudicaria a economia não pode servir mais de ameaça contra qualquer avanço social. A escravidão também foi uma lógica cruel econômica. A economia deveria organizar a vida coletiva, não transformar pessoas em combustível prestes a explodir. Curiosamente, há criatividade de sobra para proteger margens de lucro, mas ela desaparece quando o assunto é melhorar a vida de quem produz a riqueza. A produtividade virou palavra sagrada; o descanso, quase um pecado.

O fim da escala 6×1 é também uma discussão sobre quem controla o tempo de uma sociedade. O trabalhador tem direito a conviver com os filhos, estudar, namorar, cuidar da saúde e até não fazer absolutamente nada, sem precisar justificar sua existência a um departamento financeiro. Se a economia não consegue aceitar que seres humanos precisam descansar, talvez o problema não esteja nos trabalhadores, mas em quem acredita que a vida alheia é apenas uma folha de produção. Economia que só funciona quando o trabalhador abre mão da própria vida não é sinal de prosperidade: é a exploração vestida de qualquer coisa, menos de competência empresarial.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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