Transporte, violência urbana, território e desigualdade acabam funcionando como uma espécie de “imposto invisível” sobre a mulher.
Está errado um país no qual uma mulher pode conquistar uma vaga de emprego e, ainda assim, precisar desistir dela porque não consegue chegar ao trabalho com segurança, tempo e custo minimamente razoáveis. Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira mostra que 39% das mulheres brasileiras já abriram mão de uma oportunidade profissional por dificuldades de deslocamento. Entre as entrevistadas, 32% apontaram a insegurança ou a violência como principal obstáculo, enquanto custo, precariedade do transporte e distância também aparecem entre os fatores determinantes.
O mais grave é que isso não termina no emprego. 54% disseram já ter deixado de comparecer a compromissos profissionais ou recusado convites de trabalho pelas mesmas razões, e 21% desistiram de alguma capacitação, incluindo faculdade. É preciso parar de tratar esses números como uma estatística curiosa sobre transporte público. Cada percentual representa uma possibilidade interrompida: uma promoção que não aconteceu, uma entrevista que não foi feita, uma graduação abandonada, uma renda que deixou de existir. Quando a estrutura urbana obriga alguém a desistir de uma oportunidade antes mesmo de tentar, a desigualdade já não está apenas no ponto de partida, ela está desenhada no caminho.
E a conta a é simples: a cidade cobra mais justamente de quem tem menos condições de pagar. O levantamento mostra que 80,3% das mulheres de baixa renda usam ônibus regularmente, contra 52,1% das de alta renda; enquanto 40,6% das mulheres de alta renda usam carro próprio regularmente, entre as de baixa renda esse percentual cai para 8,3%. O aplicativo, que poderia funcionar como alternativa, também pesa no bolso: 67% das entrevistadas das periferias e regiões com deficiência estrutural de transporte afirmam que ele custa mais caro. Não existe verdadeira liberdade de escolha quando uma parte da população precisa calcular dinheiro, tempo e risco simplesmente para atravessar a própria cidade.
Não é aceitável que a violência determine quem pode trabalhar, estudar, circular e prosperar. Não é aceitável que o endereço de uma mulher seja capaz de diminuir suas oportunidades profissionais. E muito menos que se transfira para ela a responsabilidade de resolver uma deficiência que pertence à cidade, ao transporte público e às políticas de segurança. Uma sociedade que diz defender a autonomia feminina, mas não garante condições mínimas para que uma mulher possa sair de casa e chegar ao trabalho, está oferecendo uma liberdade apenas no discurso. O direito de ir e vir não pode ser uma promessa constitucional que termina na catraca do ônibus.
