Fábio Faria, Patrícia Abravanel e um velho hábito nacional: transformar a mulher em espetáculo de constrangimento enquanto o homem permanece no centro da notícia, mas não do julgamento
A história ainda nem terminou de ser contada, mas um comportamento coletivo já se repetiu. Em meio à repercussão envolvendo Fábio Faria, parte significativa da atenção pública rapidamente se voltou para Patrícia Abravanel. Em vez de discutir apenas quem teria praticado a conduta que originou a crise, muitos passaram a especular sobre a esposa, seu silêncio, sua reação e até o tamanho da humilhação que estaria vivendo. Como se a dor da mulher fosse um espetáculo tão atraente quanto o fato em si.
Há décadas, a sociedade brasileira demonstra uma curiosidade quase obsessiva pela mulher supostamente traída. Ela é observada, julgada, aconselhada, ridicularizada e transformada em personagem de memes e comentários, enquanto o homem frequentemente volta a ser tratado como protagonista de um escândalo passageiro. Muda o casal, muda a celebridade, mas permanece a lógica de colocar a mulher sob os holofotes do constrangimento público.
O machismo não se manifesta apenas quando culpa a mulher por um relacionamento fracassado. Ele também aparece quando transforma sua intimidade em entretenimento coletivo. A pergunta deixa de ser sobre quem praticou determinada conduta e passa a ser sobre como ela vai reagir, se vai perdoar, se vai se separar ou se continuará sorrindo diante das câmeras. Há quem não goste da celebridade e se satisfação com uma espécie de ‘catarse vingativa. ‘É uma inversão cruel que desloca o foco da responsabilidade para a exposição da vítima factual da situação.
Talvez o maior retrato desse comportamento esteja justamente na facilidade com que o país acompanha o sofrimento feminino como se fosse um capítulo inevitável da narrativa. Enquanto continuarmos mais interessados em medir a vergonha da mulher do que em discutir a responsabilidade de quem provocou a crise, estaremos apenas atualizando uma velha tradição machista: a de transformar mulheres em rés da opinião pública por acontecimentos que elas não protagonizaram.
