Como relator do caso, André Mendonça não só levou o foco da investigação para cima dos investigadores, como mandou soltar toda a quadrilha que a PF prendeu.
O que mais causa perplexidade no Brasil de hoje não é apenas a existência de um esquema que atingiu aposentados e pensionistas. É ver parte da energia institucional sendo consumida por uma ofensiva contra quem conduz as investigações. Enquanto milhões de brasileiros esperam respostas sobre quem saqueou a renda de idosos, o ministro André Mendonça decidiu abrir uma frente voltada à atuação dos investigadores. O debate passa a ser sobre quem investiga, e não sobre quem teria cometido as fraudes. Sobre os fraudadores, Mendonça quebrou o nome do STF mandando soltar todos eles. É uma inversão que dificilmente encontra justificativa perante as vítimas idosas.
Quando decisões judiciais resultam na revogação de medidas cautelares ou na soltura de investigados, é natural que despertem intenso debate público, especialmente em casos de grande repercussão. O problema surge quando a atenção institucional parece se deslocar para o trabalho da investigação, enquanto a sociedade continua esperando respostas sobre a responsabilização de quem lesou aposentados. Para quem perdeu dinheiro, essa mudança de foco é incompreensível.
O Estado existe para proteger os cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis. Idosos que trabalharam a vida inteira não esperam assistir a uma disputa entre autoridades. Esperam ver seus algozes identificados, julgados e punidos dentro da lei. Cada dia em que o centro da discussão deixa de ser o crime reforça a sensação de que as prioridades institucionais estão desalinhadas com o interesse público.
Uma democracia madura exige controle sobre investigadores e juízes, mas esse controle não pode obscurecer a finalidade principal da Justiça: esclarecer os fatos e responsabilizar quem praticou ilícitos, respeitado o devido processo legal. Quando o combate às fraudes deixa de ocupar o centro da cena, a percepção pública é a de que a burocracia institucional está falando mais alto do que o sofrimento das vítimas.
O país não precisa assistir a uma guerra entre autoridades enquanto aposentados aguardam justiça vendo os ladrões serem soltos pelo André Mendonça, uma atitude que chocou a maioria dos aposentados. O Brasil precisa saber com mais transparência quem organizou, quem executou e quem se beneficiou do dinheiro retirado de idosos por meio de condenações claras. É nisso que as instituições deveriam concentrar sua energia. Investigar investigadores pode ser legítimo quando há indícios concretos de irregularidades, mas transformar esse movimento no protagonista de um escândalo que vitimou milhares de brasileiros inevitavelmente desloca o foco do essencial.
O centro da indignação nacional deveria continuar sendo quem tirou dinheiro de quem já havia trabalhado uma vida inteira, e não aqueles encarregados de descobrir os responsáveis. A decisão de mandar soltar todos os presos envolvidos no roubo aos aposentados, me pareceu mais uma ação para desagradar a Polícia Federal, que havia prendido, do que o compromisso do combate ao crime organizado.
