Quem repôs a ordem?

Enquanto o comando do Supremo hesitou diante de uma crise institucional, coube a Flávio Dino intervir para restabelecer limites e preservar a estabilidade das investigações.

Uma instituição é testada não pelos discursos que produz, mas pela velocidade com que reage. Depois de dias de insegurança institucional provocada por decisões que abriram uma disputa em torno da atuação da Polícia Federal e de seus mecanismos internos de investigação, foi Flávio Dino quem assumiu a responsabilidade de impor um freio, restabelecendo parâmetros e evitando que a instabilidade se aprofundasse. A função de uma Corte Constitucional é oferecer previsibilidade. Quando ela demora a fazê-lo, instala-se um vazio de autoridade. A autoridade praticamente cordial de Fachin, que não tem estado a altura do cargo diante das medidas urgentes que já deveriam ter sido tomadas.

O problema nunca foi a divergência entre ministros, algo inerente a qualquer tribunal. O problema é permitir que essa divergência transborde para o funcionamento do Estado e produza insegurança sobre investigações em andamento. A independência das instituições não pode se transformar em um ambiente de incerteza permanente. Quando a estrutura encarregada de investigar passa a operar sob sucessivos sobressaltos, o sistema deixa de transmitir confiança e passa a produzir dúvidas sobre sua própria capacidade de cumprir sua missão. Missão essa que Fachin não consegue desempenhar fora dos microfones, com a urgência que o caso pede.

É justamente aí que chama atenção o contraste entre posturas. Enquanto Fachin multiplicava manifestações públicas em defesa das instituições, faltou a elas o elemento mais importante: comando. Atitude. Ação. Liderança institucional não se mede pela eloquência dos pronunciamentos, mas pela disposição de agir no momento em que a autoridade é desafiada. O Supremo precisava de direção. Recebeu discursos. Precisava de coordenação. Recebeu silêncio administrativo.

No fim, coube a Flávio Dino fazer aquilo que muitos esperavam da presidência da Corte: recolocar a instituição em seu eixo antes que a crise se ampliasse. Em momentos de tensão, preservar as regras é mais importante do que disputar narrativas. Instituições não se sustentam apenas pelo prestígio de seus cargos, mas pela coragem de exercer a autoridade que esses cargos exigem. Enquanto Fachin hesitou diante da urgência do momento, Dino assumiu o ônus de defender a estabilidade institucional e impedir que uma crise interna continuasse corroendo a confiança na própria casa que o presidente do Supremo tem o dever de preservar.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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