Grandes empresas parecem ter descoberto que cair em grupo pode ser mais confortável do que enfrentar a tempestade sozinha
Existe uma nova modalidade de “efeito manada” no mercado: a falência judicial em série. Antigamente, uma empresa quebrava e todo mundo queria distância, como se a crise fosse contagiosa. Agora, a impressão é que algumas companhias olham para a vizinha entrando em recuperação judicial e pensam: “interessante, talvez seja uma boa ideia eu experimentar também”. O mundo corporativo, que já teve moda de IPO, startup e unicórnio, parece ter encontrado seu novo fenômeno: a temporada oficial dos pedidos de socorro.
É evidente que existem empresas em dificuldades reais. A economia não é um conto de fadas, dívidas existem e gestões equivocadas deixam marcas. Mas a coincidência chama atenção: gigantes de áreas completamente diferentes, com histórias diferentes e modelos de negócio diferentes, enfrentando problemas semelhantes no mesmo período. Parece até que receberam o mesmo convite para uma festa: “venha você também, a recuperação judicial está liberada”. A pergunta incômoda é justamente essa: estamos diante de uma crise generalizada ou de uma estratégia que passou a ser vista como uma ferramenta conveniente?
Minha percepção é de que, em algum momento, o mecanismo pode começar a parecer menos um bote salva-vidas e mais uma passagem preferencial para negociar a conta. Afinal, se uma gigante consegue ganhar tempo, suspender cobranças e reorganizar suas dívidas, outras podem pensar que seguir o mesmo caminho é apenas inteligência de mercado. A velha frase “se todo mundo está fazendo, deve estar certo” nunca foi exatamente a mais brilhante da humanidade.
O ponto não é acusar empresas sem provas, mas questionar um movimento que chama atenção pela sincronia. Porque o mercado adora vender a ideia de que tudo é estratégia, planejamento e inovação. Só que, curiosamente, algumas estratégias agora parecem terminar no mesmo endereço: a porta do Judiciário. Talvez seja apenas uma coincidência. Talvez seja um reflexo de uma crise profunda. Ou talvez tenhamos descoberto que, no capitalismo moderno, até a falência entrou na disputa por tendência. E, nesse desfile, resta ao público observar, desconfiar e perguntar: quem realmente está quebrando e quem apenas aprendeu a negociar melhor a própria queda?
