Brasil não está escolhendo presidente. Está escolhendo contra quem votar

Eleição parece menos em uma disputa por projetos e mais em um campeonato de rejeição, no qual o medo do adversário pesa tanto quanto a esperança depositada no candidato

Acho reveladora a fotografia eleitoral: o eleitor parece cada vez menos interessado em perguntar quem poderá conduzir o país e cada vez mais preocupado em impedir quem não suporta que o conduza. A nova pesquisa BTG/Nexus coloca Lula com 41% e Flávio Bolsonaro com 37% no primeiro turno; no segundo, os dois aparecem tecnicamente empatados, com 46% e 45%. É uma eleição que começa a adquirir a aparência de um gigantesco plebiscito emocional, no qual a identidade do adversário importa tanto quanto a identidade do escolhido. O voto para parte do eleitorado deixou de ser uma manifestação de desejo e passou a funcionar como mecanismo de defesa: não se vota necessariamente no melhor, mas naquele que parece capaz de impedir “o pior”.

Existe aí uma armadilha. Quando a política se organiza excessivamente pelo medo, o adversário deixa de ser apenas um concorrente e passa a ocupar o lugar de ameaça. O debate público perde a capacidade de enxergar nuances porque ninguém quer mais compreender o outro lado; quer derrotá-lo. É a lógica do “qualquer um, menos ele”, que transforma divergência em suspeita, crítica em hostilidade e eleição em uma espécie de acerto de contas. O adversário político deixa de representar uma alternativa de governo e passa a representar aquilo que cada grupo teme encontrar no espelho do país. E quanto maior a rejeição, paradoxalmente, maior pode ser a capacidade de mobilização: o medo também é uma poderosa ferramenta eleitoral.

O problema é que uma democracia alimentada predominantemente pela rejeição acaba produzindo governos com uma autorização curiosa: a autorização para não serem o outro. O candidato não precisa necessariamente despertar entusiasmo; basta despertar menos horror. E assim o eleitor fica preso a uma escolha binária na qual a esperança vai sendo substituída pela prevenção. Lula pode ser votado por quem teme a volta do bolsonarismo; Flávio pode ser escolhido por quem teme a permanência do lulismo. Em ambos os casos, uma parcela importante do voto nasce menos de uma identificação positiva com um projeto do que da necessidade de barrar o projeto adversário. É como se o país tivesse transformado a urna em um botão de emergência: aperta-se para evitar alguma coisa, não necessariamente para construir alguma coisa.

O que acontece com uma sociedade quando ela passa a escolher seus governantes principalmente pelo que não suporta no outro? A resposta não é confortável. Uma eleição assim pode até produzir um vencedor, mas não necessariamente produz um país reconciliado com a própria escolha. Depois da contagem dos votos, permanecerá a mesma sociedade dividida entre os que comemoram a derrota de um lado e os que lamentam a vitória do outro. E talvez o maior fracasso da política brasileira seja justamente esse: chegarmos novamente diante da urna completamente polarizados. Não falo sobre a polarização entre políticos. Mas a que destrói a sociedade: a polarização do seu próprio povo.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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