Entre boatos, moral seletiva e crises conjugais, a montanha pode ganhar um novo peregrino em busca de redenção pública
O Brasil descobriu que existe um esporte nacional ainda mais popular que discutir futebol: acompanhar supostos vídeos vazados envolvendo políticos. No caso de Flávio Bolsonaro, bastou uma suspeita ganhar força nas redes para a internet batizar a história com um nome digno de tragicomédia: “Deus, Pátria e Orgia”. Verdade ou não, o humor brasileiro fez o que sempre faz: ocupou o vazio das certezas com uma avalanche de memes. Afinal, no país da moral em horário eleitoral e da hipocrisia em tempo integral, a sátira costuma chegar antes da perícia.
Enquanto uns aguardam esclarecimentos, outros já imaginam o próximo capítulo do roteiro. Dizem que o movimento Legendários poderia começar a estender o tapete vermelho, separar uma mochila novinha e reservar uma vaga na próxima subida à montanha de macacão laranja. Não por perseguição, mas por estatística. Nos últimos tempos, sempre que um homem público vê sua fidelidade matrimonial virar manchete, logo aparece uma foto de boné, camiseta laranja, barba por fazer e olhar contemplativo diante de um nascer do sol, anunciando que encontrou um novo propósito para a vida. A montanha virou quase um departamento de relações públicas para consciências abaladas.
Talvez seja a hora de institucionalizar o processo. Em vez de assessoria de imprensa, assessoria espiritual de crise. Em vez de coletiva de imprensa, trilha de quinze quilômetros. Em vez de nota oficial, uma selfie abraçando desconhecidos depois de muito suor e lágrimas. Se der para fazer aquela foto no piscinão para se batizar e fazer foto caindo pra trás pela 34565435664 vez, melhor. E, se a tradição continuar, quem sabe Tirulipa possa assumir a relatoria da Comissão dos Legendários no Congresso. O pai dele pode ajudar. Até porque, experiência com humor, os palhaços têm de sobra; falta apenas descobrir se o regulamento prevê imunidade parlamentar para pecados conjugais.
No fundo, a ironia não é sobre religião, nem sobre fé, muito menos sobre quem busca transformação pessoal de maneira sincera. A crítica que este colunista faz recai sobre o velho hábito brasileiro de transformar conversão em estratégia de marketing e arrependimento em gerenciamento de imagem. Pedir perdão é uma virtude. Transformar a montanha em lavanderia de reputações é outra história. Tenho certeza que, quando o ecossistema e os animais da montanha observaram os animais dos Legendários subindo alto e avante e marcha, tem abalo. E, convenhamos, até Deus deve estar cansado de ver tanta gente confundindo redenção com assessoria de crise.
