O ego ferido se impõe sobre o outro e a civilidade vira detalhe descartável para uma funcionária da ONU. A ideia de que o “cliente tem sempre razão” é como um câncer no coração de quem se acha acima dos outros
Um cenário banal: uma funcionária ligada ao Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime foi afastada após agredir uma atendente de drive-thru do McDonald’s, em Brasília, depois de um desentendimento envolvendo um pedido sem cebola. As câmeras registraram a agressão, e a justificativa apresentada, a de que teria sido desrespeitada, não apenas falha em explicar o gesto, como o torna ainda mais brutal e absurda por motivo torpe. Não é sobre o tempero. É sobre o que acontece quando alguém não suporta que algo saia do seu absoluto controle.
A atendente não é mais alguém submetida a regras, fluxo de trabalho ou limitações reais. ela passa a encarnar um “não” insuportável. O tapa, nesse contexto, é uma tentativa primitiva de recuperar controle, de silenciar a própria impotência diante de algo que não se pode dominar.
Mas esse comportamento não nasce no vazio. Ele é alimentado por uma cultura que, há anos, distorce a relação entre quem consome e quem serve. A ideia de que “o cliente sempre tem razão” foi empurrada para um extremo perigoso, onde respeito virou opcional e hierarquia social se manifesta na forma de abuso cotidiano. Em ambientes de atendimento, isso se traduz em corpos disponíveis para a descarga de frustrações, como se o uniforme autorizasse a violência.
O afastamento pela Organização das Nações Unidas e a abertura de investigação são respostas institucionais necessárias, mas o ponto mais incômodo permanece: quantas pequenas violências foram normalizadas antes que uma delas ganhasse visibilidade? O tapa por causa de uma cebola é apenas o o retrato de algo mais profundo: uma sociedade que desaprendeu a lidar com limites e passou a confundir desejo com direito absoluto. E esse colapso, ao contrário de um pedido no balcão, não se resolve com uma simples troca de ingredientes, muito menos com um tapa. Se resolve na Justiça criminal.
