O colapso moral por uma cebola

O ego ferido se impõe sobre o outro e a civilidade vira detalhe descartável para uma funcionária da ONU. A ideia de que o “cliente tem sempre razão” é como um câncer no coração de quem se acha acima dos outros

Um cenário banal: uma funcionária ligada ao Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime foi afastada após agredir uma atendente de drive-thru do McDonald’s, em Brasília, depois de um desentendimento envolvendo um pedido sem cebola. As câmeras registraram a agressão, e a justificativa apresentada, a de que teria sido desrespeitada, não apenas falha em explicar o gesto, como o torna ainda mais brutal e absurda por motivo torpe. Não é sobre o tempero. É sobre o que acontece quando alguém não suporta que algo saia do seu absoluto controle.

A atendente não é mais alguém submetida a regras, fluxo de trabalho ou limitações reais. ela passa a encarnar um “não” insuportável. O tapa, nesse contexto, é uma tentativa primitiva de recuperar controle, de silenciar a própria impotência diante de algo que não se pode dominar.

Mas esse comportamento não nasce no vazio. Ele é alimentado por uma cultura que, há anos, distorce a relação entre quem consome e quem serve. A ideia de que “o cliente sempre tem razão” foi empurrada para um extremo perigoso, onde respeito virou opcional e hierarquia social se manifesta na forma de abuso cotidiano. Em ambientes de atendimento, isso se traduz em corpos disponíveis para a descarga de frustrações, como se o uniforme autorizasse a violência.

O afastamento pela Organização das Nações Unidas e a abertura de investigação são respostas institucionais necessárias, mas o ponto mais incômodo permanece: quantas pequenas violências foram normalizadas antes que uma delas ganhasse visibilidade? O tapa por causa de uma cebola é apenas o o retrato de algo mais profundo: uma sociedade que desaprendeu a lidar com limites e passou a confundir desejo com direito absoluto. E esse colapso, ao contrário de um pedido no balcão, não se resolve com uma simples troca de ingredientes, muito menos com um tapa. Se resolve na Justiça criminal.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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