Em questão de cinco dias, o fanatismo virtual desapareceu ainda mais rápido do que começou. E a culpa não é minha…
Me chamou atenção a velocidade com que as multidões digitais se organizam para atacar e, logo depois, evaporam como se nunca tivessem estado ali. Ao comentar no Tarde é Sua em tom de brincadeira que “o Neymar é todo errado, mas dessa vez a Luana Piovani se deu mal”, narrando um processo do jogador contra a atriz, não fiz mais do que exercer uma leitura crítica bem humorada. Ainda assim, a reação foi desproporcional, quase coreografada: uma avalanche de ofensas, xingamentos, ameaças e tentativas de silenciamento vindas daqueles que transformaram admiração em devoção cega. Fui atacado pelos ‘neymarzetes’ de barba. Não se tratava de discordância: era patrulhamento emocional maquiado de defesa.
O curioso, ou talvez previsível, é que esse mesmo coro estridente desapareceu quando a notícia de agressão ao Robinho Jr foi formalizada ao clube e passou a desfavorecer o enredo dos fanáticos. Assim que surgiu o episódio que expõs a arrogância e a soberba de Neymar, inclusive em ambientes onde deveria prevalecer o coletivo, como um treino, o silêncio se impõe. As neymarzetes, inclusive “de barba na cara”, que antes ocupavam cada espaço da minha caixa de mensagens, sumiram. Não há mais indignação, não há mais defesa apaixonada, mas uma fuga estratégica diante do desconforto cognitivo.
Esse comportamento revela muito mais sobre quem ataca do que sobre quem é atacado. O fanatismo moderno não admite nuances, não tolera ambiguidade, e, sobretudo, não convive bem com a ideia de que alguém pode ser criticado em um contexto e reconhecido em outro. Ao dizer que Neymar é “todo errado”, apontei para uma construção pública já amplamente debatida. Ao afirmar que, naquele caso específico, Luana Piovani “se deu mal”, demonstrei também equilíbrio. Mas equilíbrio, hoje, é quase uma afronta para quem só enxerga o mundo em preto e branco querendo fazer dos ídolos exemplos perfeitos.
O episódio escancarou uma dinâmica clássica: a das milícias digitais emocionais, que operam com base na idolatria e no impulso, não na reflexão. Elas não querem debate, querem submissão. E quando a realidade impõe fissuras no pedestal que construíram, preferem o desaparecimento ao enfrentamento. O silêncio dessas vozes agora não é redenção, é apenas mais uma faceta da incoerência. Assim como algumas partidas de futebol, um clássico.
