A fé pela libertação das mulheres do ciclo de violência doméstica

Pastora Helena Raquel dá o primeiro passo religioso para o rompimento necessário contra a sacralização da submissão feminina

Há uma diferença crucial entre fé e controle, e o desabafo de Helena Raquel expõe exatamente esse ponto de ruptura. Durante muito tempo, e até hoje, certos espaços religiosos e cursos de machos inseguros funcionam como zonas de blindagem, onde a violência é reembalada como disciplina, e a submissão feminina, vendida como virtude espiritual. Quando uma liderança rompe esse pacto de silêncio, não é apenas coragem individual, mas a desestabilização de uma engrenagem que depende da culpa e do medo para se sustentar.

A frase “não existe unção que justifique abuso” não é apenas um posicionamento, é uma desmontagem direta de um mecanismo antigo: o da transferência cega de autoridade. Quando o agressor encontra uma “âncora” no sagrado, ele sequestra a linguagem da fé para neutralizar a percepção da vítima. O que essa fala faz é devolver o significado às palavras, reintroduzir o limite, reinstaurar a diferença entre autoridade espiritual e abuso de poder. E isso, por si só, já é um ato profundamente revolucionário.

Socialmente, o impacto é ainda mais amplo. Ao nomear a violência dentro de lares evangélicos, a pastora rompe com a lógica da excepcionalidade: aquela ideia confortável de que o problema está sempre “lá fora”. Não está. Está dentro, muitas vezes protegido por estruturas hierárquicas rígidas e por uma cultura que naturaliza o silêncio como prova de fé.

Esse tipo de fala tem um efeito que vai além da igreja. Ele tensiona a relação entre religião e poder, especialmente em contextos onde lideranças religiosas exercem influência direta sobre comportamentos e decisões coletivas dos fieis. Ao afirmar que a igreja deve ser espaço de cura, e não de medo, Helena Raquel não apenas protege vítimas, ela redefine o papel da instituição religiosa na sociedade. E talvez seja justamente isso que mais incomoda: quando a fé deixa de ser instrumento de controle, ela se torna, inevitavelmente, instrumento de libertação.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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