Evangélicos têm criticado, cada vez mais, políticos levados para os altares como um ‘figurino de ocasião’
É de embrulhar o estômago, além de indecoroso, quando o púlpito deixa de ser espaço de transcendência para se tornar extensão de palanque político. É um espaço cobiçado pelo ‘clássico político’. E o episódio envolvendo Silas Malafaia não escandaliza pelo conteúdo, isso nós já banalizamos e acostumamos, mas pela coreografia: fé convocada como plateia, indignação encenada como sermão, e política dissimulada de missão divina. Não é religiosidade, mas instrumentalização. E quando o sagrado vira ferramenta, o que se perde não é só o bom senso; é o próprio sentido.
A crítica ao Supremo Tribunal Federal e ao ministro Alexandre de Moraes, feita sob o verniz de um culto, não é apenas uma opinião, é um gesto calculado para causar tensionamento institucional embalado como liberdade religiosa. Mas liberdade não é salvo-conduto para distorcer o espaço coletivo da fé em arena de ataque. Há uma diferença essencial entre convicção e conveniência, e aqui ela parece ter sido solenemente ignorada.
Mais desconcertante ainda é a escolha de intercessão: rezar por figuras públicas envolvidas em escândalos de corrupção, como se a absolvição espiritual pudesse substituir a responsabilidade civil. A Justiça não pode permitir que esses caras promovam agora uma espécie de “anistia simbólica”, um atalho moral que não exige reparação, apenas performance. A igreja de Silas deixou de ser refúgio ético para se tornar um palco onde a contradição não só entra, como recebe aplausos.
Um líder espiritual conduzindo consciências, mas um estrategista ocupando um espaço emocional poderoso: o de manejar votos por meio da crença. E isso exige mais do que discordância, exige vigilância crítica. Em pleno 2026, até quando a Justiça vai se calar para a fé usada como escudo para interesses terrenos? O risco não é apenas político, mas é muita gente envolvida para mexer nisso. É existencial. Se esses caras conseguirem fazer a população acreditar que os ideais políticos deles podem ser justificados em nome de Deus, então já não estamos mais falando de fé: estamos falando de poder, e de um poder que não aceita ser questionado.
