Sob o verniz cínico e dissimulado de “formação” e “disciplina”, a defesa do trabalho infantil revela um pensamento que naturaliza desigualdades e ignora direitos fundamentais da dignidade humana. E vida de Zema não é exemplo para ninguém
A fala de Romeu Zema é criminosa. Sugerir, motivar e incentivar que adolescentes de 14 anos deveriam trabalhar como proposta política não é um deslize; é a exposição de uma lógica que transforma vulnerabilidade em recurso econômico. Falta de dignidade em exploração financeira. Em um país onde o trabalho infantil é crime, salvo na condição de aprendiz, com proteção legal, esse tipo de declaração não dialoga com a realidade: confronta diretamente o princípio básico de proteção à infância. Zema é um “lobo mau que detesta crianças”.
A ideologia esdrúxula desse cara é um delírio moralizante perigoso: a de que o sofrimento educa. Um pensamento perverso, que transforma o sujeito em formação em instrumento produtivo. A infância deixa de ser reconhecida como fase de constituição psíquica e passa a ser tratada como etapa de utilidade econômica para Zema e seus amigos. É a recusa da fragilidade como parte do humano, substituída por uma tentativa de disciplinamento precoce pela via da dureza.
O argumento desse cara é insustentável e regressivo. O trabalho infantil não reduz a pobreza, ele a perpetua, ao comprometer a educação e limitar o futuro dessas crianças, enquanto os filhos dessa patota passam pelo colégio, faculdade, especialização, e já entra com quase 30 no mercado. Agora, Zema quer que esses pessoas sejam aposentadas à custas de uma previdência ancorada no trabalho de crianças de 14 anos. Rico com 14 anos não trabalha. Só pobre. Os pobres trabalham mais enquanto o rico se aposenta trabalhando menos. Ridículo a forma como Zema deseja ampliar essa desigualdade.
Quando uma autoridade pública legitima esse discurso, ainda que no campo da intenção, ela fragiliza o pacto institucional que deveria proteger os mais vulneráveis. É tão bizarro, porque é a inversão da função do Estado. Trabalho infantil é crime, e defendê-lo, sob qualquer roupagem, também deve ser.
