A Fé como capital privado: Silas Malafaia quer doações dos fiéis para um novo jatinho. Que falta faz a coragem de Boechat na imprensa nacional
A fala de Silas Malafaia pedindo orações e, por consequência, legitimando contribuições para a aquisição de um avião novo não é apenas um deslize retórico: é um sintoma. Um deslocamento escancarado do desejo, em que a falta estrutural do sujeito é encoberta por objetos de poder e ostentação. O que deveria ser elaborado no campo religioso como a finitude da vida, o limite, a humildade, é substituído pela fantasia de grandeza, onde o avião não é transporte, mas extensão narcísica. O líder religioso, nesse cenário, deixa de mediar o sagrado e passa a instrumentalizá-lo para sustentar sua própria imagem idealizada.
Essa prática revela uma dinâmica perigosa de concentração de poder. Igrejas que funcionam como estruturas altamente centralizadas, muitas vezes sem transparência financeira, criam líderes que não apenas orientam espiritualmente, mas também controlam fluxos significativos de capital. Quando um pastor se sente à vontade para expor publicamente um desejo material dessa magnitude, e ainda vinculá-lo à fé coletiva, é porque há um sistema que normaliza isso. O fiel deixa de ser cidadão crítico e se transforma em agente financiador de um projeto pessoal maquiado de missão divina.
Já no campo religioso, o contraste é ainda mais gritante. A tradição cristã, em suas bases mais elementares, valoriza a simplicidade, o desapego e a ética do cuidado com o outro. “De a Cesar o que é de Cesar”. A teologia da prosperidade, frequentemente evocada para justificar acúmulos materiais, distorce esses princípios ao associar fé com riqueza e bênção com luxo. O problema não é apenas teológico, mas moral: quando líderes espirituais passam a exibir, sem constrangimento, seus interesses privados como se fossem desígnios divinos, a própria noção de transcendência é esvaziada. Deus deixa de ser fim e vira meio.
O mais inquietante, no entanto, é a naturalização desse tipo de discurso. Se antes havia algum pudor em ocultar a destinação dos recursos arrecadados, hoje parece haver uma inversão: a exibição se tornou estratégia. Isso revela não apenas a audácia de quem pede, mas também o grau de adesão de quem ouve. A crítica, portanto, não pode se limitar ao Malafaia, mas deve alcançar o sistema que permite e, em certa medida, incentiva, que a fé seja convertida em moeda de troca para desejos pessoais. No fim, o que está em jogo não é um avião: é a própria integridade do vínculo entre o humano e o sagrado.
