Província de Saint Catherine: intolerância e violência civil

O espancamento de um homem com um cassetete confundido com usuário de maconha revela o colapso silencioso da civilidade em Santa Catarina e o avanço de uma política violentíssima

A cena é brutal, mas não é isolada: um homem foi agredido com golpes de cassetete em plena rua, em Florianópolis, após ser confundido por um morador como alguém que fumava maconha, quando, na verdade, tratava-se de um cigarro comum. O agressor não era policial, não havia flagrante, não existia qualquer autorização legal. Ainda assim, havia convicção. Convicção suficiente para bater. Convicção suficiente para substituir o Estado. Convicção suficiente para instaurar o medo. 

É aqui que a situação me deixa altamente incomodado: quando cidadãos passam a agir como agentes de coerção, o que está em curso não é “ordem”, mas um processo de erosão do monopólio legítimo da violência. O Estado deixa de ser o único mediador da força, e a sociedade passa a operar sob uma lógica difusa de milícias morais. Em Santa Catarina, esse deslocamento parece ganhar contornos próprios: uma cultura política que normaliza o vigilantismo, um flerte à milícia gourmet, legitimada por discursos que transformam suspeita em sentença e diferença em ameaça.

O episódio na minha opinião é ainda mais revelador, pois carrega diversas camadas. O agressor não bate apenas em um homem: ele projeta um “outro” perigoso, criminoso, um inimigo imaginado que precisa ser eliminado. O cigarro vira maconha (e mesmo que fosse), o cidadão vira criminoso, e a violência vira “correção”. Esse deslizamento do mundo atual para Idade Média é o que transforma paranoia em crimes reais. Não se trata mais de erro, trata-se de desejo sádico e inconsciente de punir que vem sendo estimulado pelos políticos daquele Estado.

O impacto disso ultrapassa o episódio e alcança a própria imagem do Estado. O turismo, que depende de percepção de segurança e acolhimento a TODOS os públicos, começa a ser atravessado por relatos de hostilidade e intolerância. Relatos de pessoas que estão deixando de viajar para Santa Catarina e trocando seus roteiros já começam a ser disseminados pelas redes sociais. Aos poucos, instala-se uma pergunta desconfortável: Santa Catarina ainda é um destino ou está se tornando um território de risco para quem não pensa ideologicamente e politicamente com os partidos que controlam a região? Quando moradores se armam de cassetetes e se sentem autorizados a julgar e executar punições na rua, não estamos diante de um desvio, estamos diante de um projeto em curso. E todo projeto baseado no medo, na violência, mais cedo ou mais tarde, termina amargando isolamento.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

LEIA MAIS

Nunca foi tão claro que o mundo é um condomínio

Jesus histórico ou Cristo da fé?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *