Fabiana Bolsonaro passou a se declarar parda à Justiça Eleitoral depois que a legislação passou a considerar votos em candidatos negros com peso dobrado para distribuição de recursos e tempo de TV partidário. Fraude confirmada pode resultar em cassação
A cena grotesca protagonizada por Fabiana Bolsonaro ao recorrer ao blackface na tribuna não é um desvio isolado, é a culminação de uma trajetória marcada por manipulação identitária e oportunismo político. Ao pintar o próprio corpo para sustentar um argumento, a parlamentar reproduziu uma prática historicamente racista que já vinha orientando sua atuação pública: a identidade como ferramenta descartável, moldada conforme a conveniência.
A coluna apurou que em 2020, ela se declarou “branca” à Justiça Eleitoral; Mas, em 2022, passou a se declarar “parda”. Não se trata de mera fluidez identitária legítima, o contexto eleitoral desmonta essa narrativa. A legislação passou a considerar votos em candidatos negros (pretos e pardos) com peso dobrado para distribuição de recursos e tempo de TV partidário . Ou seja, a mudança de autodeclaração não ocorre no vazio: ela coincide com um benefício político concreto, mensurável e altamente disputado.
É aqui que o caso deixa de ser apenas moralmente questionável e passa a flertar com a ideia de fraude. Quando a autodeclaração racial, instrumento importante de reparação histórica, é instrumentalizada para ampliar financiamento e visibilidade, há uma distorção do sistema democrático. Não se está diante de uma vivência racial complexa, mas de um expediente estratégico que banaliza políticas públicas pensadas para corrigir desigualdades estruturais. E ela não foi a única, centenas de candidatos fizeram movimento semelhante, o que revela um padrão preocupante de “engenharia racial eleitoral” .
O episódio recente do blackface, portanto, não é um erro isolado: é coerente com uma trajetória que transforma raça em figurino político. Ao vestir a cor como argumento, seja em formulários oficiais, seja em encenações públicas, seja na sua declaração identitária para a Justiça Eleitoral, Fabiana Bolsonaro não apenas agride a história e a dignidade de pessoas negras, mas também expõe um sistema vulnerável à fraude. O que está em jogo agora não é só o decoro parlamentar, mas a integridade de políticas de equidade racial que, diante de casos como este, correm o risco de serem capturadas por quem as trata como mero recurso eleitoral.
