O meu drama psicológico para escolher algo no streaming

Ontem me peguei por quase 20 minutos procurando algo para assistir e acabei continuando a mesma série. Acontece com vocês?

Houve um tempo em que assistir televisão era uma atividade surpreendentemente simples. A programação já estava decidida, os canais eram poucos e o espectador basicamente escolhia entre o que estava passando naquele momento. Hoje, no entanto, vivemos a era da abundância absoluta. Isso é ótimo, eu sei! As plataformas de streaming oferecem milhares de títulos, algoritmos sofisticados e recomendações personalizadas. Em teoria, nunca foi tão fácil encontrar algo para assistir. Na prática, porém, nunca foi tão difícil decidir.

O fenômeno já virou um pequeno drama psicológico doméstico. O espectador abre a plataforma com uma intenção vaga de relaxar e, sem perceber, entra em um ritual silencioso de navegação infinita. Um filme parece longo demais, outro parece superficial, uma série parece exigir compromisso emocional, outra parece complexa demais para aquela noite. Assim, os minutos passam enquanto o polegar desliza pela tela, como se cada nova opção fosse a promessa de uma escolha perfeita que nunca chega.

Esse meu comportamento peculiar em demorar a decidir a atração revela um paradoxo curioso: quanto mais opções existem, maior tende a ser a sensação de uma procura que não se acha. A abundância produz uma espécie de ansiedade decisória. Escolher significa abrir mão de dezenas de outras possibilidades, e o cérebro humano parece resistir a essa renúncia. O resultado é um estado intermediário em que o indivíduo não assiste a nada, mas também não consegue parar de procurar.

No fim da noite, depois de quase 30 minutos explorando catálogos infinitos, me veio a solução mais humana possível: assistir novamente aquela mesma série que ainda deixou alguns capítulos faltando para terminar. Não porque seja necessariamente a melhor opção, mas porque ela oferecia algo raro no universo das escolhas modernas: previsibilidade. No fundo, acho que ontem eu não estava procurando apenas entretenimento. Estava procurando a tranquilidade de não precisar decidir mais nada após um longo dia de trabalho. Preguiça minha? Total. Assumo…

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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