Distinção cultural ou desejo de parecer diferente? Julguem…
Existe um momento peculiar em certas conversas em que alguém declara, quase com solenidade: “eu não vejo televisão”. A frase raramente é neutra. Ela carrega uma tonalidade curiosa. Não se trata apenas de uma informação sobre consumo de mídia, mas de um pequeno gesto de distinção. Ao afirmar essa ausência, o sujeito não descreve apenas o que faz: ele sinaliza quem acredita ser. O aparelho desligado transforma-se, paradoxalmente, em identidade.
Na boa… Esse gesto pode ser lido como uma forma discreta de construção narcísica. A pessoa não apenas organiza seus gostos; ela os utiliza como mote para produzir uma narrativa sobre si mesmo. Ao rejeitar aquilo que é percebido como “sou foda”, constrói-se a fantasia de uma identidade mais singular, mais autônoma, menos contaminada pela cultura de massa. O curioso é que o objeto rejeitado, a televisão, passa a ocupar um lugar central, pois é justamente contra ele que a identidade precisa se afirmar, ou seja, a televisão.
Acho que o gosto cultural raramente é apenas gosto. Talvez essa pequena declaração revele menos sobre televisão e mais sobre uma antiga inquietação humana: o desejo de parecer diferente da multidão. O sujeito moderno deseja ser singular, mas vive cercado por formas culturais compartilhadas. Entre o impulso de pertencimento e a necessidade de distinção, surgem essas pequenas afirmações identitárias que atravessam as conversas do cotidiano. A televisão, nesse caso, não é exatamente o problema. Ela é apenas o espelho silencioso diante do qual cada um tenta ajustar, discretamente, a própria imagem.
