O “cuidado pastoral da eparquia” agora terá que incluir nas próximas reuniões as contabilidades criativas do turismo noturno: puteiros!
Enquanto o mundo contabiliza guerras, crises humanitárias e líderes que ao menos fingem cuidar de seus povos, eis que, dentro da barca de Pedro, surge mais um capítulo de administração celestial com notas fiscais bastante terrenas. O agora ex-bispo Emanuel Hana Shaleta, ligado à eparquia de San Diego, teria descoberto uma interpretação bastante flexível da expressão “cuidado pastoral”. O venerável pastor administrava algo em torno de US$ 427 mil, algo equivalente a R$ 2,2 milhões, aparentemente com o zelo de quem entende que o dinheiro da Igreja deve circular… especialmente em lugares onde a circulação é, digamos, mais noturna: vamos aos nomes certos: puteiros!
O mais fascinante para quem trabalha há anos reportando notícias, é que escândalos são quase um sacramento informal das instituições humanas, mas a elegante fórmula burocrática anunciada pelo Vaticano foi demais: o papa Papa Leão XIV teria aceitado a “renúncia ao cuidado pastoral da eparquia”. Uma frase que, na gramática política, pertence ao mesmo gênero literário de “afastamento para esclarecimentos” ou “licença para tratar de assuntos particulares”. Mas na boa gente… Chamamos isso mesmo é de escândalo tão barulhento que a diplomacia precisa falar baixo para sobreviver.
A Igreja que prega a pobreza evangélica continua enfrentando, século após século, a tentação muito humana da contabilidade criativa com o dinheiro de Pedro. O curioso é que essas instituições milenares não caem por causa dos pecados: caem quando perdem a capacidade de administrá-los. E quando a frase oficial vira “renunciou ao cuidado pastoral”, o público inevitavelmente imagina que o cuidado estava sendo prestado… em outros tipos de estabelecimento.
Não sei com vocês, mas a mim… 02:18 da madrugada… Resta um certo humor melancólico. Enquanto o planeta discute guerras e catástrofes, dentro das estruturas mais antigas da civilização ainda se luta contra vícios bastante clássicos: poder, dinheiro e hipocrisia: a santíssima trindade informal da política humana. O religioso deixa o cargo, o Vaticano escreve uma nota elegante e o rebanho fica com a impressão de que o verdadeiro milagre não é transformar água em vinho, mas transformar escândalo em administração. Até o pecado, ou a Igreja, ou seria mesmo o pecado, ou seria mesmo a Igreja? Enfim… Até o pecado e a Igreja têm precisado de uma boa assessoria de imprensa.
