O Brasil aprendeu a falar sobre inclusão com desenvoltura. O problema é que os números continuam denunciando uma sociedade que inclui no discurso e exclui na vida.
O Brasil desenvolveu uma extraordinária capacidade de produzir linguagem sobre inclusão. Aprendeu a falar em diversidade, acessibilidade, equidade, direitos e representatividade com uma sofisticação institucional que, muitas vezes, produz a sensação de que o problema está sendo enfrentado simplesmente porque passou a ser nomeado. Mas a realidade tem a péssima mania de não respeitar discursos. Os dados divulgados pelo IBGE mostram que pessoas com deficiência recebem, em média, 30% menos do que o rendimento das pessoas sem deficiência. E o problema não começa no salário: a taxa de ocupação também não chega a 30% entre pessoas com deficiência, contra todos os demais. Quando existe uma diferença tão profunda na possibilidade de trabalhar e obter renda, alguma coisa está profundamente errada naquilo que convencionamos chamar de inclusão.
E a educação desmonta ainda mais violentamente a fantasia de que estamos diante de um problema pontual. Entre jovens de 15 a 29 anos, o analfabetismo alcança 12,2% das pessoas com deficiência, contra 1% entre aquelas sem deficiência. É uma diferença civilizatória. Não estamos falando apenas de uma dificuldade para conseguir emprego. Estamos falando de uma estrutura que, em uma etapa decisiva da formação da autonomia individual, entrega a determinados cidadãos muito menos instrumentos para disputar a própria existência. Não é razoável chamar de “natural” uma desigualdade que começa a ser construída dentro da escola.
Também tem um hábito tão brasileiro quanto banal nesse processo: somos capazes de reconhecer juridicamente um direito muito antes de sermos capazes de assegurar as condições materiais para que ele exista. Nas moradias onde vivem pessoas com deficiência, os indicadores de saneamento e acesso à internet também são inferiores aos registrados entre domicílios sem pessoas com deficiência. O cidadão pode possuir formalmente os mesmos direitos que os demais e, ainda assim, viver em uma realidade na qual exercer esses direitos custa muito mais. É aí que a desigualdade deixa de ser estatística e passa a ser política: quando o Estado reconhece a igualdade perante a lei, mas não consegue produzir condições minimamente equivalentes para que ela seja experimentada na vida cotidiana.
É a distância entre o país que gostamos de imaginar e o país que construímos. Uma sociedade não se torna inclusiva porque aprendeu a falar sobre inclusão; torna-se inclusiva quando uma pessoa com deficiência consegue estudar, trabalhar, morar, circular e ganhar dinheiro sem que sua condição seja convertida em uma sentença permanente de desvantagem. O restante é cenografia moral. E talvez esteja na hora de abandonar a celebração das palavras e começar a cobrar resultados. Direitos que existem no papel, mas não chegam à vida material, são uma das formas mais elegantes que uma democracia encontrou de esconder a própria insuficiência.
