Flamengo passa vergonha e recebe lição dos torcedores

Clube tenta defender o indefensável para proteger um mercado que lucra com a desgraça do próprio torcedor

A nota do Flamengo em defesa das bets expõe uma tentativa preocupante de transformar uma defesa comercial em um discurso de liberdade. O clube parece ignorar que não está falando de um produto qualquer, mas de uma indústria que construiu seu modelo de negócio em cima da exploração de desejos, impulsos e da esperança de quem acredita que um resultado improvável pode mudar sua vida. As apostas não vendem apenas entretenimento: vendem uma fantasia de controle sobre o acaso, uma promessa ilusória de superar frustrações e preencher vazios com uma recompensa instantânea. É justamente essa fragilidade humana que se torna matéria-prima de um mercado bilionário.

O argumento da responsabilidade individual usado para defender as bets é uma velha estratégia de transferência de culpa. Coloca-se todo o peso sobre o cidadão enquanto se protege uma estrutura econômica poderosa, com recursos milionários de publicidade, tecnologia e influência. É uma inversão conveniente: o indivíduo vulnerável passa a ser tratado como único responsável por resistir a uma máquina criada para estimular consumo, repetição e permanência. Quando uma instituição do tamanho do Flamengo empresta sua credibilidade para esse discurso, ela não apenas anuncia uma marca; ela ajuda a legitimar uma lógica que transforma vulnerabilidade social em oportunidade de lucro.

O mais grave é a tentativa de apresentar as apostas como se fossem apenas mais um patrocinador no uniforme de um clube. Não são. Existe uma diferença brutal entre divulgar um produto e associar uma paixão coletiva a uma atividade que depende da expectativa permanente de risco e recompensa. O futebol possui um poder emocional gigantesco, e justamente por isso sua influência não pode ser usada como uma espécie de selo de aprovação moral. A camisa de um clube não é apenas um espaço publicitário; ela carrega identificação, pertencimento e confiança para milhões de criançs. Usar esse vínculo para naturalizar as bets é ignorar deliberadamente o impacto dessa associação.

O Flamengo é uma das maiores instituições esportivas do país, mas sua grandeza não deveria ser medida apenas pelo tamanho da receita que consegue gerar. Uma instituição verdadeiramente gigante também precisa saber quais limites não deve ultrapassar. A história mostra que mercados altamente lucrativos frequentemente resistem a reconhecer seus danos até que a sociedade cobre responsabilidade. Defender as bets sem enfrentar suas consequências sociais é escolher o caminho mais confortável: proteger o dinheiro imediato e deixar para a sociedade o custo das consequências. O futebol nasceu como paixão popular; não pode aceitar ser transformado em vitrine para explorar a esperança de quem tem pouco a perder.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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