Enquanto fortunas desaparecem em crises e fraudes, a indignação coletiva continua encontrando seu alvo preferido justamente entre aqueles que menos pesam nas contas públicas
A imagem ME PROVOCA REPULSA porque inverte a lógica da indignação. Ela sugere que o trabalho de quem está na base da sociedade sustenta privilégios que raramente são questionados com a mesma intensidade dedicada aos programas de transferência de renda. Não se trata de negar a necessidade de fiscalização de políticas públicas (toda aplicação de dinheiro público deve ser transparente), mas de observar como o debate nacional parece desenvolver uma estranha capacidade de enxergar com lupa o auxílio destinado aos mais pobres e, ao mesmo tempo, olhar com indulgência para prejuízos bilionários provocados por fraudes, corrupção, sonegação ou operações financeiras malsucedidas.
Em vez de dirigir a revolta para quem concentra poder econômico e influência política, parte da sociedade descarrega sua frustração sobre quem ocupa a posição mais vulnerável. O beneficiário do Bolsa Família passa a representar, no imaginário coletivo, um suposto privilégio que precisa ser combatido, enquanto personagens muito mais poderosos permanecem protegidos pela distância social, pelo prestígio ou pela complexidade dos escândalos que protagonizam. É mais confortável responsabilizar quem depende do Estado para sobreviver do que enfrentar estruturas que acumulam riqueza e influência.
Esse mecanismo não surge por acaso. Ele alimenta uma narrativa conveniente para quem prefere que o debate público permaneça concentrado nos efeitos da desigualdade, e não em suas causas. Quando o foco se desloca para o valor recebido por uma família pobre, perde-se de vista o custo muito maior das decisões tomadas nos andares mais altos do poder econômico e político. A discussão deixa de ser sobre concentração de renda, privilégios e responsabilidade institucional para se transformar numa disputa moral contra quem quase sempre tem menos voz para se defender.
Não estou pedindo complacência com irregularidades nem transformando pobreza em virtude. Só estou fazendo um convite para que você que me segue aqui, lhe convidando a uma pergunta incômoda: por que um benefício destinado à sobrevivência desperta tanta revolta, enquanto escândalos que drenam bilhões frequentemente provocam indignação passageira? Talvez a resposta revele menos sobre o orçamento público e mais sobre a forma como o país aprendeu a distribuir não apenas sua riqueza, mas também sua moral e sua culpa.
