Virei estatística

O assalto revelou menos sobre os criminosos, cuja lógica já conhecemos, e muito mais sobre uma parte de pessoas que preferiu a indiferença e o julgamento à empatia.

Hoje foi minha vez. Roubaram meu celular e, oficialmente, virei mais um número em uma estatística que cresce sem pedir licença. Até aí, nenhuma novidade. O curioso foi descobrir que o assalto mais interessante não aconteceu na rua, mas nos comentários do Instagram. Precisava avisar a minha equipe de trabalho. Só tinha um notebook, o Instagram, e as directs que, certamente, pelas milhares de mensagens que recebem todos os dias, ninguém do meu programa visualizaria a tempo. E aí, eis que fiz um comunicado, como dava, no feed da minha página. Antes mesmo de aparecer alguém perguntando se eu estava bem, já havia quem transformasse o episódio em disputa política, torcida organizada ou oportunidade para confirmar convicções. Descobri que, para certas pessoas, o sofrimento alheio vale menos do que a chance de vencer um debate político imaginário. Alguns diziam: “faz o L”, enquanto outros respondiam: “segurança pública em SP é da conta do Tarcísio.”

Os assaltantes fizeram exatamente o que se espera de assaltantes: roubaram. Não há surpresa nisso. A surpresa veio de quem se apresenta como civilizado. O crime levou meu celular; alguns comentários levaram qualquer disfarce de humanidade. Há quem consiga enxergar uma ideologia antes de enxergar uma pessoa. Há quem procure culpados antes de perguntar se houve violência, medo ou dano. Há amigos no trabalho que apenas disseram: “ok, foi correria aqui hoje.” Talvez o dado mais preocupante não seja termos nos tornado estatísticas da segurança pública, mas perceber que também podemos virar estatísticas da indiferença entre pessoas que convivem conosco todos os dias.

Confesso que achei até engraçado. Virei estatística para os criminosos e, aparentemente, também para alguns colegas. O algoritmo registra curtidas, a polícia registra ocorrências e certas amizades registram apenas conveniências. Existe gente que acompanha cada passo da sua vida, comenta todas as suas publicações, mas desaparece justamente no único momento em que bastava uma pergunta simples: “Você está bem?”. Às vezes, um assalto faz um inventário muito mais eficiente das relações do que anos de convivência. E àqueles que realmente se preocuparam, eu li todos os comentários, muito obrigado.

No fim, vem a parte bonita: quem tem um amigo de verdade, como eu tenho, um que seja, não morre descoberto. Meu sincero agradecimento ao amigo que, sem que eu pedisse, me acolheu e fez questão de me acompanhar por todos os lugares necessários para resolver cada problema decorrente do roubo. Foi você, meu amigo, quem lembrou que solidariedade ainda existe e que ela nunca faz barulho. O assalto levou meu celular. Em compensação, isso tudo me confirmou quem vale a pena manter por perto. Há perdas que custam dinheiro; outras rendem uma lucidez que dinheiro nenhum compra.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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