A obsessão por transformar todo mundo em empreendedor

Se a pessoa trabalha 12 horas por dia sem direitos, ela é empreendedora ou simplesmente está sem proteção trabalhista?

O Brasil desenvolveu uma espécie de obsessão por chamar de empreendedor aquele que, muitas vezes, simplesmente não encontrou outra alternativa. O sujeito que perdeu o emprego, passou a vender comida, fazer entregas, trabalhar como motorista ou prestar pequenos serviços é rapidamente convocado a enxergar sua própria precariedade como liberdade. Não se trata de negar o valor do empreendedorismo, da criatividade ou da autonomia profissional. A questão é outra: quando a ausência de direitos trabalhistas passa a ser vendida como mérito individual, estamos diante de empreendedorismo ou apenas de uma nova embalagem para a precarização?

A lógica é perversa porque transfere para o indivíduo uma responsabilidade que também pertence à sociedade. Se alguém trabalha 12 horas por dia, não tem férias remuneradas, não possui proteção previdenciária adequada, não sabe quanto ganhará no mês seguinte e precisa continuar trabalhando mesmo doente, chamar isso simplesmente de “ser dono do próprio negócio” pode ser uma maneira elegante de não discutir por que essa pessoa chegou a essa condição. O discurso motivacional entra justamente onde deveria entrar a política pública: transforme a dificuldade em oportunidade, a insegurança em coragem e a falta de proteção em espírito empreendedor.

O trabalhador é incentivado a acreditar que qualquer fracasso é exclusivamente culpa sua e que qualquer sucesso é resultado apenas de esforço, disciplina e mentalidade. Se prospera, confirma a narrativa. Se fracassa, aparentemente não trabalhou o suficiente. Desaparecem da equação a desigualdade, o acesso ao crédito, a educação, a concentração de renda, as condições do mercado e a própria estrutura econômica. O indivíduo passa a carregar sozinho o peso de uma sociedade que prefere contar histórias de superação a discutir as razões pelas quais tanta gente precisa transformar a própria sobrevivência em negócio.

O problema, portanto, não é o empreendedorismo. É a transformação da precariedade em virtude moral. Uma sociedade minimamente séria deveria conseguir celebrar quem empreende sem romantizar quem trabalha até a exaustão porque não tem proteção. Nem todo trabalhador autônomo é um empresário em potencial; às vezes ele é apenas um trabalhador sem patrão, sem sindicato, sem férias, sem décimo terceiro e sem a rede de segurança que durante décadas foi construída para proteger quem vende sua força de trabalho. Talvez a pergunta mais incômoda seja justamente esta: por que estamos tão interessados em ensinar o trabalhador a se sentir empreendedor, quando deveríamos também estar preocupados em garantir que ele não precise se tornar um para sobreviver?

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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