Nunca se troca a força política interna pelo respaldo de uma potência estrangeira. Aliados defendem interesses, não tutelados. Hoje, Corina Machado é peça fora do tabuleiro de Trump, que garantiu 100 anos de petróleo latino de forma ilegal
Há um padrão que a história insiste em repetir. Lideranças que deixam de buscar soluções dentro das próprias instituições e passam a apostar no poder de governos estrangeiros acabam descobrindo que a geopolítica não opera por amizade, mas por conveniência. É por isso que a trajetória recente de Flávio Bolsonaro começa a lembrar, em alguns aspectos, a de María Corina Machado: a crença de que o respaldo de uma potência pode substituir a força política construída dentro do próprio país. Machado tornou-se símbolo da oposição e apostou boa parte de sua estratégia no apoio dos Estados Unidos. O tempo mostrou, porém, que Washington nunca teve como prioridade colocá-la no poder, muito menos permitir a abertura de novas eleições no País. O presidente hoje da Venezuela é Trump, por prazo vitalício enquanto ele estiver no poder e ponto final . Mudanças de governo, negociações diplomáticas e interesses energéticos alteraram o tabuleiro. Na política internacional, ninguém recebe apoio sem que exista uma contrapartida exploratória compatível com os interesses e o tamanho de quem oferece esse apoio.
Guardadas as diferenças entre Brasil e Venezuela, Flávio Bolsonaro parece trilhar lógica semelhante ao recorrer cada vez mais ao ambiente político americano como espaço de sobrevivência para o bolsonarismo. O discurso claramente passou a depender da pressão externa, alimentando a ideia de que soluções para conflitos nacionais poderiam nascer da influência de outro país. É uma inversão preocupante: em vez de fortalecer a soberania, aposta-se na tutela política de uma potência. Uma democracia pode negociar, pressionar, dialogar e buscar apoio internacional, isso faz parte da política externa. Mas, jamais gritar outro país para que sejamos tratados como submissos a um árbitro externo, que deseja ditar sobre conflitos que deveriam ser resolvidos pelas próprias instituições nacionais.
A ironia é que o colonialismo moderno raramente chega com bandeiras fincadas em praias. Ele costuma vir embalado em discursos de parceria, proteção ou defesa de valores comuns. Quem acredita que uma potência age por altruísmo corre o risco de descobrir que foi apenas uma peça descartável de um jogo muito maior. A experiência de María Corina Machado serve como alerta: nenhuma potência estrangeira constrói sua política externa em torno da fidelidade pessoal de um político de outro país; constrói-a em torno de seus próprios interesses.
E talvez esteja aí a contradição mais profunda: quem pede que uma potência estrangeira resolva aquilo que deveria ser decidido dentro de seu próprio país não está fortalecendo seu projeto político; está terceirizando a própria soberania com sua vassalagem. O eleitor brasileiro pode escolher seus representantes, contestar decisões, apoiar ou rejeitar governos e disputar democraticamente os rumos do país. O que não pode ser naturalizado é a ideia de que a legitimidade política possa ser importada de Washington. Porque, no instante em que um político passa a depender mais da força de outro Estado do que da confiança dos próprios cidadãos, deixa de apresentar um projeto de poder e começa, perigosamente, a oferecer ao estrangeiro uma parcela da autonomia que deveria defender, tornando-se um traidor da pátria.
