A fraude negacionista de Flávio Bolsonaro

Candidato passou atestado de burrice em rede nacional: saneamento básico não combate aquecimento global; países desenvolvidos já provaram isso

Misturaram esgoto, desenvolvimento urbano e crise climática: uma estratégia para fugir do debate científico e transformar solução local em desculpa para negar um problema planetário. É preciso esclarecer quando a ignorância de um negacionista ameaça a cognição do eleitor, que nem sempre dispõe das informações necessárias. Há uma diferença básica entre enfrentar problemas ambientais e manipular conceitos para criar uma falsa narrativa. O saneamento básico é uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade: reduz doenças, melhora a qualidade de vida, protege rios e amplia a dignidade das populações. Mas transformar saneamento em argumento contra o aquecimento global é um erro científico grosseiro. É burrice brutal. Uma coisa não substitui a outra. É como dizer que construir hospitais elimina a necessidade de combater e prevenir doenças: são respostas diferentes para problemas diferentes.

O aquecimento global não é uma consequência da falta de tratamento de esgoto na porta das casas. A ciência climática aponta um consenso consolidado: a elevação da temperatura média do planeta está diretamente relacionada ao aumento da concentração de gases de efeito estufa, principalmente pela queima de combustíveis fósseis, pelo desmatamento e por mudanças no uso da terra. O saneamento pode contribuir para uma agenda ambiental mais ampla, inclusive reduzindo impactos locais, mas não explica nem resolve a alteração do sistema climático global.

A fala que tenta trocar a discussão sobre mudanças climáticas por uma defesa de obras de infraestrutura revela uma confusão proposital entre causa e consequência. E quem não estudou costuma embarcar no bonde da burrice. Que fique claro, então: países desenvolvidos possuem altos índices de saneamento e, ainda assim, enfrentam ondas de calor, incêndios florestais, tempestades extremas e elevação do nível do mar. O planeta não está aquecendo porque falta esgoto tratado; ele está aquecendo porque a humanidade alterou o equilíbrio químico da atmosfera em escala industrial. Flávio perdeu essa aula. E, se tratando de ciência, o impacto que ela causa na sociedade ensina que uma civilização negacionista é uma civilização ‘suicida’.

O negacionismo climático funciona como uma contaminação do debate público porque espalha falsas equivalências e cria dúvidas onde a ciência já estabeleceu evidências. A sociedade precisa ser capaz de reconhecer quando uma solução importante é usada como cortina de fumaça para negar outro problema. Saneamento é fundamental, mas não é antídoto contra o aquecimento global. Confundir os dois temas é oferecer ao eleitor, pura, e tão somente, desinformação. E desinformação, a longo prazo, mata!

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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