Farda em fúria: o dia em que um policial socou estudantes dentro da escola e rasgou o próprio sentido de autoridade

Entre a autoridade e o autoritarismo, há um abismo; e, desta vez, ele foi atravessado com extrema violência

Não há metáfora que alivie: um policial dentro de uma escola agredindo estudantes com socos, deixando os jovens no chão. Isso não é apenas um excesso: é uma ruptura do pacto civilizatório. O caso ocorrido no Largo do Machado, no Rio de Janeiro, escancara uma cena brutal em que jovens, mobilizados por um protesto legítimo, inclusive contra uma denúncia de assédio, foram tratados como inimigos a serem neutralizados. As imagens mostram uma estudante sendo socada por um policial, esbofeteada, tendo sua roupa rasgada, e outro aluno sendo derrubado com um soco.  Não é só violência física: é pedagogia do medo.

A única coisa que eu vi ali foi o desvio da função essencial do Estado. A polícia, em uma democracia, existe para mediar conflitos e proteger cidadãos, especialmente os mais vulneráveis. Quando essa força se transforma em instrumento de intimidação e violência, ela deixa de ser Estado e passa a encarnar o seu oposto: o autoritarismo cru, instintivo, quase primitivo. A escola, que deveria ser território de formação crítica, vira palco de coerção. E isso não é um acidente, é sintoma de uma cultura institucional que ainda confunde autoridade com força bruta.

O episódio me fez refletir algo ainda mais inquietante: o sujeito fardado que não consegue sustentar o próprio lugar recorre ao corpo, ao impulso, ao ato violento como tentativa desesperada de reafirmação. É o fracasso do controle interno. O estudante, nesse cenário, deixa de ser um jovem em formação e passa a ser visto como ameaça, alguém que precisa ser calado, contido, esmagado. O tapa não é só físico: é a incapacidade de lidar com o diálogo.

E é justamente por isso que a indignação precisa ser intransigente. Não se trata de demonizar uma instituição inteira, mas de recusar com firmeza a naturalização da barbárie. Um policial que agride estudantes, principalmente uma adolescente dentro de uma escola, não protege a sociedade: ele a adoece. Ele é uma vergonha para a corporação e a sociedade. Ele ensina, pelo pior método possível, que o poder pode tudo e que o diálogo não vale nada. E que mulheres podem tomar um suco de um homem, se ele estiver usando uma farda. E quando jovens aprendem isso cedo demais, o futuro deixa de ser promessa e passa a ser repetição. E aqui, volto a usar uma frase frequente para encerrar meus textos: estamos todos condenados.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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