Pessoas que desprendem tempo e energia para xingar e ofender os outros por causa do BBB são pessoas fracassadas. Na grande maioria, não se sentem realizadas e ainda são de uma geração mais velha que deveria dar exemplo. Mas, ao contrário, estão tomando um banho de educação de uma geração mais nova, mais educada e consciente. Bloquear continua sendo a melhor opção.
Há algo de profundamente revelador, e perturbador, no espetáculo paralelo que se desenrola fora da casa mais vigiada do país. Não é o jogo, não são as estratégias, tampouco os conflitos televisionados. O verdadeiro enredo está nos comentários: perfis inflamados, insultos desproporcionais, sentenças morais lançadas com uma violência que não encontra justificativa plausível em um programa de entretenimento. Eu mesmo, por exemplo, passei a observar melhor os perfis que tem me xingado e ofendido pelas redes sociais. E a observação a partir desses perfis é quase didática: o objeto odiado não é o participante, nem o torcedor adversário, nem eu, nem ninguém. O alvo é apenas um pretexto. O que se observa é a clássica projeção: conteúdos internos intoleráveis sendo despejados no outro, com a comodidade de uma tela como escudo.
Vivemos uma era de desagregação, em que instituições perderam autoridade e o indivíduo, desamparado, busca microcampos de batalha onde possa exercer algum tipo de poder. O Big Brother Brasil, nesse sentido, funciona como uma arena acessível, onde qualquer um pode se sentir juiz, carrasco e protagonista. Mas há um detalhe incômodo: ao observar mais de perto os perfis que protagonizam ofensas e xingamentos, emerge um padrão que não pode ser ignorado. Trata-se, em muitos casos, de pessoas atravessadas por ociosidade, desalento ou estagnação: biografias revoltadas com insucesso pessoal, que encontram na agressividade virtual uma falsa sensação de alívio, ação e relevância.
É duro dizer, mas necessário: ninguém perde horas do dia atacando desconhecidos por causa de um reality show se estiver minimamente ocupado em construir algo de si. O ódio que se manifesta ali não nasce no sofá diante da televisão; ele é anterior, mais profundo, mais estrutural. O programa apenas oferece o palco. E enquanto essas batalhas imaginárias se desenrolam com fúria quase patológica, há uma ironia cruel: os participantes, enclausurados na casa, ignoram completamente a existência desses algozes digitais. São guerras travadas no vazio, gritos lançados contra o nada, um teatro de irrelevância que consome tempo, energia e, sobretudo, dignidade.
Talvez o dado mais inquietante seja geracional. Esperava-se dos mais velhos alguma forma de contenção, de elaboração, de exemplo civilizatório. No entanto, o que se vê, com frequência desconcertante, é o oposto: uma entrega à grosseria que contrasta com a surpreendente maturidade de muitos jovens, que assistem, torcem e discordam sem transformar divergência em degradação humana. Isso não é apenas uma falha de comportamento: é um sintoma social de uma geração mais velha que ficou frustrada pela não realização dos seus sonhos. No fim, a questão não é sobre o Big Brother Brasil. Nunca foi. É sobre o que cada um faz com o próprio vazio. E, entre abrir um livro, estudar e fazer um curso quando o BBB termina, ou ir para internet para destilar ódio e ofender os outros, essa escolha diz muito, talvez tudo, sobre quem se é. Nunca foi sobre o BBB.
