Você não precisa cometer o mesmo erro que eu

Um pai, uma filha de 13 anos e o despertar tardio para uma luta que esteve 30 anos omissa dentro de mim

Eu demorei trinta anos para entender, de verdade, o que significa viver em um país onde mulheres crescem aprendendo a se proteger antes mesmo de aprenderem a sonhar. Eu opinava, lamentava tragédias, compartilhava indignações pontuais. Mas era tudo reativo, episódico, confortável. A violência contra a mulher era uma estatística, uma manchete, um debate necessário, só que distante. Até o dia em que eu me vi pai de uma menina. Foi nesse momento que o medo deixou de ser conceito e ganhou rosto, voz, quarto ao lado do meu.

Não me orgulho de admitir que só despertei quando a realidade atravessou o meu sobrenome. Durante anos, eu não fui contrário à luta das mulheres, mas também não fui ativo. Não confrontei piadas, não tensionei ambientes, não questionei estruturas com a firmeza que deveria. Eu defendia quando a tragédia já estava consumada, mas não me engajei de forma preventiva. E há uma diferença brutal entre reagir ao horror e trabalhar para que ele não aconteça. Hoje, entendo que a omissão educada também sustenta o problema.

Ser pai de menina me obrigou a encarar algo incômodo: a sociedade ensina os homens a enxergarem a violência de gênero como algo externo, quase abstrato, até que ela ameace “o que é nosso”. É um reflexo egoísta, mas profundamente humano. A gente só sente na pele quando imagina a própria filha andando na rua, entrando em um relacionamento, sendo silenciada em uma reunião. Foi esse deslocamento, do coletivo para o íntimo, que me acordou. E eu precisei aceitar que a minha consciência não nasceu da virtude, mas do vínculo.

Não escrevo para me absolver. Escrevo porque sei que muitos homens ainda estão onde eu estive: achando que indignação eventual é suficiente. Não é. A mudança precisa acontecer antes do medo bater à porta. Nem todo homem será pai de menina. Nem todo homem terá esse estalo emocional. Mas todos podem escolher acordar agora. Se a minha sinceridade provocar desconforto, que seja produtivo. Se provocar aplauso, que seja pelo compromisso de não voltar a dormir. Porque esperar sentir na própria casa pode ser tarde demais.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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