Historiadores estão, nesse momento, registrando tudo o que os nossos filhos não deixarão de saber: grande imprensa, juízes que tentam interferir no pleito e todos os movimentos eleitorais sendo catalogados e nomeados nos livros da próxima geração
O poder das grandes empresas de comunicação não reside apenas naquilo que publicam, mas também na hierarquia que estabelecem entre os acontecimentos, na repetição de determinadas narrativas e na capacidade de transformar alguns episódios em crises nacionais enquanto outros recebem atenção proporcionalmente menor. Essa influência não exige uma conspiração coordenada. Opera por escolhas editoriais que, acumuladas, podem consolidar uma interpretação política como se ela fosse a própria realidade. Fiscalizar políticos é obrigação essencial do jornalismo, mas catalogar se os mesmos critérios, a mesma intensidade e a mesma disposição crítica são aplicados aos diferentes atores políticos é essencial.
No caso de Lula, essa questão ganha dimensão histórica na grande imprensa. Sua trajetória rompeu uma tradição brasileira na qual o acesso à Presidência esteve concentrado, durante muito tempo, nas mãos de grupos socialmente privilegiados, como a p´ropria grande imprensa. Sua origem operária, a identificação popular e a presença de parcelas historicamente marginalizadas no centro da disputa política produziram mudanças que não podem ser compreendidas apenas pela lógica administrativa de um governo. Também provocaram resistências, conflitos de interesses e disputas pelo significado de sua liderança. Isso não torna Lula imune a críticas; torna insuficiente qualquer avaliação que desconsidere o contexto social de sua trajetória e os efeitos concretos das políticas públicas. A imprensa cumpre sua função fiscalizadora quando investiga responsabilidades e oferece elementos para compreender os fatos, não quando a complexidade da realidade é reduzida a uma narrativa de condenação permanente.
A disputa pela opinião pública é também uma disputa pela memória. Por isso, historiadores estão sentados nesse momento escrevendo tudo o que estão vendo para os próximos livros. A repetição de escândalos, declarações e conflitos pode fixar determinados personagens no imaginário coletivo por parte da grande imprensa, enquanto, nos livros de História, o que estará em discussão são as políticas públicas, indicadores sociais e decisões econômica ques exigem explicações mais demoradas e menos atraentes para a lógica do espetáculo. Essa assimetria pode aparecer na escolha do que merece manchete, na linguagem usada para descrever cada acontecimento e no espaço concedido às diferentes versões. Não nos livros de História.
Estarão sim, e já estão sendo catalogados pelos historiadores decisões judiciais, por exemplo, por parte de ministros do STF e do TSE, decisões que têm consequências políticas e que tem desequilibrado as eleições de 2026, sobretudo no que tange a censura e suas devidas razões. Nesse sentido, os próximos livros de História não estarão nas livrarias contrapondo a grande imprensa. Eles só não estão sendo escritos a partir de uma linha editorial, ou seja, não se limitam à denúncia de notícias falsas. Historiadores, antes de concluir uma obra, examinam também como informações verdadeiras, selecionadas e repetidas sem contexto suficiente podem produzir uma compreensão parcial do país em determinadas épocas.
Na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, historiadores não compram manchetes de notícias. Eles observam, por eles mesmos, quem define as prioridades do debate, quais interesses ganham visibilidade e quais experiências sociais permanecem à margem da narrativa nacional. As grandes empresas de comunicação não são observadoras externas à sociedade: são instituições com estruturas econômicas, prioridades editoriais e poder de influência, sujeitas, como qualquer outra instituição, ao escrutínio público. E por isso, não esstão apenas contando também a história, mas também são acompanhadas e descritas por ela. Foi nesse compasso que, há alguns anos, a Globo pediu no Jornal Nacional desculpas públicas por ter apoiado a Ditadura. Ela não pediu porque se arrependeu, mas porque também foi catalogada, em determinado recorte nacional, como golpista pelos livros de História.
A atuação da grande imprensa nunca estará à margem dos livros de História, porque a História exige independência, coerência nos critérios e responsabilidade na construção dos recortes públicos. O problema democrático não é a existência de críticas, pelo contrário, mas a possibilidade de que o poder de selecionar, repetir e hierarquizar informações determine antecipadamente os limites dentro dos quais milhões de brasileiros serão convidados a julgá-lo. E é essa desconstrução que já está sendo colocada hoje pelos historiadores nos próximos livros que chegarão às mãos das próximas gerações. E acredite: A História será implacável.
