O milagre dos quatro anos

Há um fenômeno recorrente na política que desafia a lógica econômica e alimenta uma pergunta que a democracia não pode se cansar de fazer

Existe um milagre moderno sobre o qual quase ninguém escreve como deveria. Não acontece em templos, nem desafia as leis da física. Acontece nas urnas. Um cidadão disputa uma eleição declarando um patrimônio modesto, vence, toma posse e passa a exercer um cargo cujo salário é conhecido por todos. Quatro anos depois, apresenta uma declaração de bens que faria inveja a empresários que passaram décadas construindo empresas, enfrentando crises, pagando impostos, assumindo riscos e convivendo diariamente com a possibilidade do fracasso. É um milagre curioso. Tão curioso que, de tão repetido, parece ter deixado de causar espanto.

Talvez o problema não seja apenas o patrimônio. Talvez seja o silêncio. Em qualquer cidade, um comerciante que amplia seu negócio explica de onde veio o investimento. Um agricultor mostra a boa safra. Um empresário apresenta contratos, balanços, resultados. O dinheiro, quando nasce do trabalho, costuma deixar rastros. Já na política, por vezes, o crescimento patrimonial parece surgir envolto numa névoa de naturalidade, como se enriquecer durante um mandato fosse apenas mais um detalhe burocrático da vida pública. O cidadão comum acorda cedo, paga impostos, enfrenta juros, inflação e um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Então olha para alguns representantes e se pergunta, em silêncio, qual é o segredo que transforma um mandato temporário em um patrimônio permanente. Essa pergunta não nasce da inveja. Nasce da lógica.

A ética republicana não exige apenas honestidade; exige também aparência de honestidade e transparência suficiente para dissipar dúvidas razoáveis. Quem escolhe administrar o patrimônio coletivo aceita, junto com o cargo, o dever de prestar contas não apenas dos atos administrativos, mas também da coerência entre sua evolução patrimonial e os rendimentos que declara. Onde há clareza, a suspeita perde espaço. Onde faltam explicações existe o vazio.

No fim das contas, talvez a maior riqueza que um agente público possa acumular não esteja em imóveis, fazendas, empresas ou aplicações financeiras. Está na honestidade perante vida. Essa, ao contrário de qualquer patrimônio material, não pode ser declarada em um formulário nem comprada durante um mandato. É conquistada lentamente e perdida de uma só vez. Nós não deveríamos nos acostumar com milagres financeiros que dispensam explicações. Afinal, na vida pública, aquilo que parece extraordinário deveria ser justamente o que mais merece ser esclarecido.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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