Um mandato para quê?

Flávio Bolsonaro só quer um mandato para tirar o pai da cadeia, anistiar a organização criminosa aliada e derrubar suas investigações. Lula também só precisa de mais um mandato para manter Jair Bolsonaro preso, impedir a anistia de golpistas e garantir que as investigações levem o filho para o mesmo lugar do pai: a cadeia.

Flávio Bolsonaro repete, com frequência, que só precisa de um único mandato. A frase parece um slogan de campanha, mas dificilmente pode ser dissociada do momento vivido por sua família. Para muitos brasileiros, quando ele fala em mudar o país, o que realmente está em jogo é a possibilidade de alterar a correlação de forças para beneficiar Jair Bolsonaro, buscar anistia para aliados condenados ou investigados pelos ataques às instituições e enfraquecer o avanço de investigações que atingem seu grupo político.

É justamente por isso que essa eleição não pode ser tratada como uma disputa comum. O que está sendo oferecido ao eleitor não é apenas um projeto econômico ou administrativo. É um projeto que, na visão de seus adversários, busca reescrever as consequências jurídicas dos acontecimentos dos últimos anos e devolver poder a quem hoje enfrenta decisões da Justiça.

Mas há um contraponto igualmente claro. Lula também pode dizer que precisa de apenas mais um mandato. Não para apagar processos ou criar privilégios, mas para garantir que as decisões judiciais sejam respeitadas, impedir que uma anistia desfaça a responsabilização pelos atos antidemocráticos e assegurar que investigações em andamento, inclusive aquelas que envolvem Flávio Bolsonaro, cheguem ao seu desfecho sem interferência política.

No fim, talvez Flávio Bolsonaro tenha razão em uma coisa: um único mandato pode, de fato, mudar o Brasil. A pergunta que o eleitor precisa responder é em qual direção. Para desmontar a responsabilização de um grupo político golpista e devolver a ele o controle do Estado, ou para consolidar o princípio de que ninguém, por mais poderoso que seja, está acima da lei. Essa talvez seja a escolha mais importante que o país fará em 2026.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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