O chicote não é vitória, é marca de uma ferida histórica

A comemoração eleitoral com um instrumento associado à escravidão mostra como certos gestos políticos revelam mais do que seus autores pretendem fingir passar

A cena dispensa explicações porque carrega séculos de memória. A cena de Júlia Zanatta comemorando sua votação com um chicote nas mãos pode até ser apresentada como uma referência regional ao “relho”, mas a escolha de um objeto marcado pela história da escravidão brasileira ultrapassa qualquer justificativa de brincadeira ou tradição. O chicote não é apenas couro e madeira: ele carrega um som.

A política, quando escolhe seus símbolos, revela muito sobre a mensagem que deseja transmitir. Entre tantos elementos possíveis para celebrar uma vitória democrática, a escolha justamente de um instrumento associado ao castigo físico provoca uma pergunta incômoda: qual é a necessidade de transformar uma conquista pelo voto em uma encenação de força e submissão? É quase como se alguém tivesse procurado um símbolo para representar poder e, numa falta de criatividade histórica, tivesse encontrado uma peça de museu da opressão.

O problema não está apenas no objeto, mas no imaginário que ele desperta. Democracia não é um campo de batalha onde vence quem parece mais ameaçador; o voto não entrega uma autorização para humilhar, dominar ou reproduzir símbolos de tempos em que alguns tinham o direito de mandar e outros eram obrigados a obedecer. A autoridade de um representante público deveria estar na capacidade de dialogar, não na teatralização de uma força que lembra períodos de violência.

No fim, o chicote acabou dizendo mais do que a própria comemoração pretendia. A tentativa de transformar um símbolo de dor em adereço de vitória revela uma dificuldade preocupante de compreender que alguns objetos não são neutros. Há marcas históricas que não desaparecem porque alguém decide empunhá-las como uma provocação. O Brasil já teve chicotes demais em sua história para ainda precisar deles como cenário de celebração política.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

LEIA MAIS

A mesma arma, dois pesos da sociedade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *