A mesma arma, dois pesos da sociedade

E se a criança fosse preta, pobre e estivesse em uma periferia com uma arma na mão em cima de um carro?

A pergunta é incômoda justamente porque chega com uma contradição que muitos preferem não encarar: a mesma imagem pode receber julgamentos completamente diferentes dependendo de quem está nela. Uma criança com uma arma nas mãos deveria provocar preocupação em qualquer circunstância. Mas se essa criança fosse preta, pobre e moradora de uma periferia, com uma arma em cima de um carro, será que a narrativa seria a mesma? Seria vista como uma celebração ou imediatamente transformada em símbolo de perigo, violência e criminalidade?

O objeto é o mesmo, o risco é o mesmo, mas a sociedade muitas vezes não olha todos da mesma maneira. Há crianças que recebem o direito à explicação, à proteção e ao benefício da dúvida. Outras carregam antes mesmo de qualquer atitude o peso de preconceitos históricos, associados ao lugar onde nasceram, à cor da pele e à condição social. A arma continua sendo uma arma, mas o julgamento sobre quem a segura ainda passa por filtros que revelam as desigualdades de uma sociedade.

Quando adultos colocam uma criança diante de um símbolo de violência e poder, não estão apenas entregando um objeto. Estão transmitindo uma mensagem sobre o que merece admiração, respeito e reconhecimento. A infância é construída pelos exemplos recebidos. Ensinar que uma arma pode representar orgulho ou vitória é criar uma relação perigosa entre identidade, força e violência, independentemente de quem seja essa criança.

A discussão não deveria depender de partido, ideologia, bairro ou sobrenome. Se uma arma nas mãos de uma criança é algo grave, precisa ser grave em todas as situações. A indignação não pode ser seletiva. Uma sociedade madura não escolhe quais crianças merecem proteção e quais merecem julgamento. A mesma arma não pode ser tratada como símbolo de comemoração em alguns corpos e como prova de ameaça em outros.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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