A horinha mais cara do mercado das gentilezas

Se a bajulação veste terno, a conversa vira um teatro onde ninguém quer admitir o preço do programa

A frase que circulou nos noticiários, atribuída a uma conversa vazada entre Roberto Justus e Daniel Vorcaro, algo na linha de “custa me receber por uma horinha?”, parece ter saído de um manual moderno sobre a arte de pedir favor sem chamar de favor. É aquela velha negociação em que ninguém diz exatamente o que quer, mas todos entendem perfeitamente o valor da conversa. Antes de tudo, é importante saber que no Brasil das relações de poder, uma “horinha” nunca é apenas uma horinha. Às vezes ela custa reputação, constrangimento e uma boa dose de teatro.

Existe uma curiosa economia da gentileza entre pessoas muito poderosas: todos chegam dizendo que é uma visita rápida, uma conversa informal, um papo de amigo. É quase como aqueles estabelecimentos onde ninguém pergunta o preço antes, mas todo mundo sabe que a conta chega. E chega cara.

A cena tem um quê de comédia de costumes. De um lado, alguém tentando convencer que aquela conversa merece alguns minutos da agenda. Do outro, alguém que sabe que sua atenção virou um produto raro. Entre essas pessoas, até o silêncio pode ter tabela de preço. E, no fim, fica a pergunta incômoda: quando uma pessoa implora por uma hora de atenção de outra, está buscando uma conversa ou comprando uma oportunidade?

Me desperta sempre a curiosidade sobre o comportamento humano. Sobre finanças, não ousaria; sempre tive pouco… Mas sobre observar pessoas, minha conclusão, nesse caso, é o ridículo escondido atrás das formalidades. O poder adora usar gravata para esconder a vaidade, mas às vezes uma simples frase desmonta todo o figurino. No palco das relações entre dinheiro, influência e prestígio, há quem venda imagem de autonomia enquanto passa o chapéu discretamente. E o público, eu e você, sentado na plateia, só consegue rir da velha comédia humana: aquela em que todos juram que não estão negociando nada, justamente quando tentam negociar tudo.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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