Precisei trabalhar muito a humildade até entender que, o que eu chamava de timidez, era uma fuga do meu orgulho pelo medo de ser julgado, ou não ser aceito.
Durante muito tempo, classifiquei a mim mesmo como tímido. Era uma definição confortável, quase afetuosa, que explicava minhas ausências em eventos, recusas educadas a convites e a hesitação diante de ambientes sociais onde a espontaneidade parecia regra. A timidez funcionava como um abrigo psicológico: eu não estava evitando, eu apenas “era assim”. Esse rótulo me oferecia uma narrativa aceitável para mim e para os outros, uma justificativa elegante para permanecer à margem sem precisar investigar profundamente o que, de fato, me impedia de atravessar certas portas.
Foi somente após um processo sincero de auto-observação, um ano de estudo sobre o meu comportamento, desses que desmontam certezas cuidadosamente construídas, que percebi algo desconfortável: não era timidez. Na verdade, era orgulho. Estava imerso nesse nefasto sentimento. Por meio da psicanálise identifiquei que meu ego criava defesas sofisticadas para preservar minha imagem idealizada. O que eu chamava de timidez era, na verdade, o medo de não corresponder à imagem que eu desejava sustentar diante do olhar alheio. Não era o receio de aparecer, mas o pavor de aparecer sem controle. Não era insegurança pura; era vaidade e medo. Orgulho de ser visto e não admirado. Orgulho de ser interpretado fora do roteiro que eu imaginava para mim mesmo.
Por um momento cai no chão e comecei a chorar com vergonha de mim mesmo. Era o primeiro passo para a transformação. Entendi que eu estava sendo absolutamente covarde em pegar meu orgulho para disfarçar de fragilidade. Ele não se apresentava apenas uma arrogância explícita; muitas vezes surgia como autoproteção refinada. Ao evitar situações sociais, eu não estava apenas me preservando da ansiedade, eu tentava preservar uma versão ideal de mim mesmo que não suportaria a possibilidade de falhar, ser mal compreendido ou simplesmente passar despercebido. A timidez, nesse caso, tornava-se uma defesa narcísica: melhor não ir do que arriscar não ser aquilo que o próprio ego me exigia. A descoberta foi desconcertante porque deslocou a narrativa da vítima para a responsabilidade.
Quando compreendi que aquilo que me paralisava era menos timidez e mais falta de humildade diante da imperfeição humana, algo se rearranjou internamente. A barreira perdeu força. Aceitar a possibilidade de não controlar a percepção do outro trouxe uma liberdade inesperada. Por isso compartilho esta reflexão quase como um convite para vocês: será que aquilo que você chama de timidez não esconde, em alguma medida, o orgulho de não querer ser visto fora do ideal que construiu para si? Talvez a verdadeira coragem social não esteja em vencer o medo, mas em aceitar ser humano diante do olhar do mundo: incompleto, interpretável e, justamente por isso, vivo.
