Se milhões assistem, e o próprio autor confessa que foi “inaceitável”, o exemplo precisa ser claro e não um aceno brando
Em plena cobertura ao vivo, um repórter da Band empurrou uma jornalista da Record durante uma entrada ao vivo. O caso, registrado em vídeo e amplamente divulgado nas redes sociais, gerou indignação pública e levou a vítima a registrar um boletim de ocorrência por agressão. No entanto, o próprio repórter, ao pedir desculpas, classificou mais de cinco vezes o caso como “inaceitável”. E é justamente por isso que a resposta da Band foi decepcionante: a emissora discordou do repórter e fez um aceno, sim, de que é aceitável, embora uma advertência. O canal limitou-se a emitir uma nota exaltando o “bom histórico” do agressor, informando que ele foi apenas advertido internamente e que teria pedido desculpas. Mas quando a cena é vista por milhões de pessoas, impacto simbólico do ocorrido é outro.
Essa resposta institucional revela o que muitas vezes se esconde por trás de discursos públicos sobre ética e responsabilidade: a proteção de quem está dentro, mesmo quando está errado. Quando um ato de violência ocorre em rede nacional, em frente às câmeras, a punição precisa estar à altura da exposição. A sociedade espera, e tem o direito de esperar, que as consequências sejam coerentes com os valores que defendem publicamente.
Ao relativizar o ocorrido com o argumento de que o repórter tem um “bom histórico”, a Band se alinha a uma lógica perversa, onde homens com prestígio ou tempo de casa podem cometer atos de violência e sair praticamente impunes. O gesto de empurrar uma colega de profissão ao vivo não é um erro técnico ou uma falha de comunicação: é um ato de agressão física. E agressões exigem consequências reais, não notas brandas e desculpas nos bastidores.
A emissora perdeu uma oportunidade valiosa de dar o exemplo. Poderia ter se posicionado de forma firme, afastando o profissional até a apuração dos fatos, ouvindo a vítima e demonstrando compromisso com a segurança e dignidade de todas as mulheres, inclusive as que trabalham fora dos seus estúdios. Ao contrário, preferiu manter o agressor em seu posto, sinalizando que a violência pode ser tolerada. Para isso é preciso bom histórico, um pedido de desculpa e uma advertência.
O jornalismo perde quando seus próprios profissionais normalizam o desrespeito e quando as instituições que deveriam garantir um ambiente ético falham em agir. O público vê, analisa e reage. Em tempos em que a violência contra mulheres e a banalização do desrespeito crescem, minimizar um episódio como esse é mais do que uma escolha editorial: é um ato político, de conivência. E isso, definitivamente, não cabe mais.
