O debate sobre jornada e nova escala de trabalho revela nossa relação doentia com a produtividade
Discussões sobre mudanças na escala de trabalho e decisões da Câmara dos Deputados do Brasil tocam num ponto sensível na realidade contemporânea: a culpa por não produzir. Vivemos sob a lógica do superego moderno, que exige desempenho constante. Descansar virou quase um pecado moral.
A flexibilização vendida como liberdade só não pode significar a maldade da precarização a longo prazo. O trabalhador já sofre demais nesse país: assume riscos, jornadas instáveis e insegurança, enquanto existe o medo do discurso dominante celebrar “autonomia” futura para seus empregados, maquiada de salários inferiores. É a versão econômica do “você é livre, e se alguma coisa piorar a culpa sua”.
Isso gera sujeitos exaustos que se sentem sempre insuficientes. A cultura da performance produz ansiedade crônica e sensação de inadequação. Não se trata apenas de horas trabalhadas, mas da invasão do trabalho na identidade.
A crítica, portanto, é civilizatória: quando a dignidade é medida pela produtividade, o ser humano vira instrumento. O debate sobre a redução da jornada não é, e nem deve ser somente técnico: mas também é ético e psíquico. Estamos discutindo o direito de não estar sempre à disposição do mercado. E isso tem tudo a ver com a dignidade humana.
