SPC e Carnaval, a criatividade do brasileiro que parcelou a própria dor

Do boleto vencido ao “erro 404 do amor”, observei a criatividade nacional merecendo isenção de imposto

Se existe um prêmio que o Brasil deveria ganhar todo ano é o de transformar trauma em glitter. Nesse Carnaval, andava pelas ruas e observava o que os blocos provaram: que o brasileiro não apenas supera a crise; ele costura a crise e desfila sorrindo. Teve gente fantasiada de boleto vencido com código de barras gigante nas costas e a frase: “vence todo mês, mas eu finjo que não vejo”. Um grupo inteiro saiu de “taxa surpresa do cartão de crédito”, cada um representando uma cobrança diferente. Era praticamente um desfile da Receita Federal.

E não para por aí. A inteligência artificial também virou alvo: foliões vestidos de “IA fora do ar” com placa escrito “tente novamente mais tarde” e outros de “ChatGPT cansado respondendo ‘depende’ para tudo”. Teve ainda o clássico “Wi-Fi do Carnaval”, uma pessoa andando no meio do bloco prometendo conexão e entregando apenas frustração. O auge foi o rapaz fantasiado de “Atualização de Sistema às 18h num sábado”, seguido por amigos vestidos de “Reiniciando…”

Mas o brasileiro gosta mesmo é de expor o caos emocional. O print de conversa do WhatsApp virou fantasia oficial: assisti na esquina da minha casa uma pessoa vestida de balão verde com a mensagem “precisamos conversar” piscando em LED. Outra inovou: foi de “visualizou e não respondeu”, caminhando lentamente enquanto ignorava todo mundo. Casais fantasiados de “relacionamento indefinido” discutiam no meio do bloco só para manter a coerência artística.

0 Carnaval segue sendo nossa maior tese de doutorado em sobrevivência criativa. O brasileiro pega inflação, boletos, ex-tóxico, instabilidade emocional e transforma tudo em alegoria coreografada. Enquanto o resto do mundo investe em tecnologia de ponta, a gente investe em fantasia de “limite do cheque especial”. E quer saber? Funciona. Porque se a realidade insiste em ser dramática, a gente responde com samba no pé e sarcasmo no olhar. Rir da própria desgraça é praticamente patrimônio cultural não registrado.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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