Acordei hoje com a certeza que é justamente o invisível que mais me atravessa
Acordei, orei, refleti e concluí sobre uma estranha beleza naquilo que não se resolve. A Sexta-feira Santa não me oferece alívio imediato, não me promete finais felizes nem recompensas rápidas. Ela é para mim, antes de tudo, um convite ao silêncio: um silêncio que não é ausência, mas presença densa, quase palpável. É sempre nesse intervalo entre a dor e a esperança que a fé deixa de ser discurso e se torna experiência. Não a fé dos altares impecáveis ou das palavras bem ensaiadas, mas aquela que me faz tremer, que me faz hesitar, e que me sustenta mesmo sem garantias.
A dor, nesse dia, não é um erro a ser corrigido, mas uma travessia a ser compreendida. Após minhas orações nessa manhã, fui tomado por uma sensação de que nem tudo na minha vida poderá ser salvo a tempo, que nem toda injustiça em minha vida encontrará resposta imediata. Ainda assim, a minha fé persiste: não como negação da realidade, mas como resistência íntima a sucumbir ao desespero. É uma força silenciosa que não grita, não se impõe, mas permanece. Como alguém segurando a minha mão no escuro sem saber exatamente onde vamos chegar.
Talvez o maior equívoco que eu tive ao longo dos últimos anos foi imaginar a fé como certeza absoluta. A Sexta-feira Santa nos ensina o contrário: crer é, muitas vezes, continuar mesmo quando tudo parece perdido. É olhar para o vazio e, ainda assim, escolher não se desfazer por dentro. É confiar não porque se tem provas, mas porque há algo no coração que insiste em não desistir. Essa insistência, delicada e firme, é o que me humaniza e, paradoxalmente, o que me aproxima todos os dias do sagrado.
Hoje, na minha perspectiva de vida, entendi que a fé não está no milagre que virá, mas na coragem de permanecer enquanto ele não chega. Há uma dignidade profunda em quem continua acreditando, mesmo ferido, mesmo cansado. E talvez seja isso que a Sexta-feira Santa me ofereceu de mais precioso essa manhã: não respostas, mas companhia. Uma lembrança de que, mesmo no dia mais escuro, há algo que ainda acende dentro de mim, pequeno, quase invisível, mas o suficiente para não deixar meu motor apagar no meio da estrada.
