O brasileiro perdeu o senso de humor e ninguém percebeu porque estávamos discutindo na internet
Houve um tempo em que o brasileiro possuía uma habilidade quase artística: rir de si mesmo. Era um talento nacional. Ríamos da política, da própria desorganização cotidiana e até das nossas tragédias domésticas. Não era cinismo, era sobrevivência cultural. O humor funcionava como uma espécie de amortecedor social. Mas em algum momento, silenciosamente, essa habilidade começou a desaparecer. E quase ninguém percebeu, porque todos estavam ocupados demais tentando vencer discussões na internet.
Hoje, basta observar qualquer debate digital para perceber a mudança. O humor foi substituído por um clima permanentemente brutal. Cada frase precisa ser defendida como se fosse uma tese de doutorado, cada ironia é interpretada como crime e cada piada passa por uma espécie de perícia ideológica antes de ser considerada aceitável. O resultado é que ninguém mais ri: mas todos se sentem obrigados a opinar com a gravidade de quem está redigindo a Constituição.
A incapacidade de rir de si mesmo talvez seja o sintoma mais curioso dessa nova fase. O brasileiro sempre teve uma relação quase terapêutica com a própria imperfeição. Hoje, porém, admitir falhas virou fraqueza pública. O erro precisa ser negado, a contradição precisa ser combatida e qualquer tentativa de humor pode ser tratada como uma afronta. O que antes era uma cultura da autocrítica bem-humorada parece ter se transformado numa disputa permanente por superioridade moral.
O brasileiro não perdeu completamente o humor: ele apenas perdeu o tempo para usá-lo. Entre uma indignação e outra, entre uma resposta atravessada e um comentário furioso, a gargalhada foi ficando para depois. E assim seguimos: um país que sempre foi especialista em fazer piada da própria realidade, agora excessivamente ocupado tentando provar, online, que está certo, ou então cometendo crimes digitais.
