Candidatura de Dado Dolabella testa todos os limites das mulheres
O Brasil acordou, abriu o celular, viu o vídeo de lançamento e reagiu quase em uníssono: “que porra é essa?”. A frase ecoou em aplicativos de conversas, timelines e mesas de bar com a naturalidade de quem leva um susto coletivo. Porque não se tratava de um nome qualquer entrando na política. Era Dado Dolabella, agora se apresentando como alguém engajado publicamente na proteção das mulheres. O roteiro parecia ousado demais até para um país que já viu de tudo. E a dúvida não era ideológica, era quase semântica: o Brasil estava entendendo direito o que estava vendo?
Não é implicância, é memória. Uma breve busca na internet e esse arquivo implacável da vida real relembra episódios, denúncias e processos que colocaram o ator no centro de acusações de violência contra mulheres. Algumas não, várias mulheres. Não estamos falando de boatos de bastidor ou fofocas maldosas, mas de registros públicos que moldaram a imagem dele ao longo dos anos. Por isso o espanto não é fabricado; ele nasce do contraste gritante entre o passado amplamente divulgado e o discurso atual cuidadosamente roteirizado.
Claro, todos têm direito à reconstrução de imagem, à revisão de atitudes, à redenção: isso é básico numa sociedade minimamente civilizada. Mas a política não é um retiro espiritual nem uma assessoria de branding. Quando alguém com histórico controverso decide se lançar como defensor de uma causa tão sensível, o mínimo que se pode esperar é rir, pois “rir é um ato de resistência”. Não dá para tratar o estranhamento coletivo como simples “preconceito” ou “perseguição”. É reação lógica diante de uma guinada que parece saída de um laboratório de marketing.
No fim das contas, o “que porra é essa?” não é apenas deboche: é um mecanismo de autodefesa social. É o eleitor dizendo que não tem memória curta, que não aceita narrativa pronta sem confronto com os fatos, que não aplaude conversão instantânea sem responsabilidade histórica. Se a candidatura quer ser levada a sério, terá que encarar esse passado de frente, sem vitimismo e sem atalhos retóricos. Porque o Brasil pode até se distrair fácil, mas quando o choque é grande demais, a pergunta volta, e volta ALTA.
