Entre afetos, saudades, limites e a decisão humilde de voltar
São Paulo é uma cidade que exige entrega total. Não apenas talento, tempo ou ambição, mas uma disponibilidade contínua de energia, estrutura e sustentação emocional. Quando esses pilares deixam de se equilibrar, a cidade rapidamente se torna menos promessa e mais cobrança. Há momentos em que insistir não é sinônimo de força, mas de negação e reconhecer isso é um gesto de maturidade, não de recuo.
Toda permanência precisa fazer sentido no cotidiano. Não basta a expectativa. A vida real se impõe nos detalhes: na rotina, no custo de existir, na saúde mental, na capacidade de se manter inteiro. Quando a equação deixa de fechar, o planejamento deixa de ser desejo e passa a ser necessidade. E algumas decisões, embora dolorosas, são necessárias.
O Rio de Janeiro, nesse contexto, deixa de ser apenas geografia e volta a ser afeto. Voltar não é fugir, é reatar com aquilo que sustenta nossa conexão segura. A cidade natal não representa um passo atrás, mas um chão conhecido, uma rede possível, um espaço onde a vida pode voltar a ser como antes. Há escolhas que não pedem anúncio dramático, apenas coerência com o próprio limite. E nesse sentido renasceu o desejo de retornar ao porto seguro.
Para quem observa de fora, o movimento pode parecer motivado por saudade, por laços emocionais ou por um chamado íntimo difícil de explicar. Mas, certas decisões não nascem do impulso, mas da leitura lúcida de um cenário que merece foco.
O retorno, portanto, vai deixando de ser hipótese e se misturando a uma certeza. E, com ele, encerra-se também um ciclo, como tudo na vida. Quando nossa vida não encontra mais respaldo na realidade, perde centralidade. E com isso voltamos a ser primitivos. Seguir insistindo apenas por instintos e não pela razão seria apenas prolongar. Há horas em que a atitude mais lúcida e racional, é saber, justamente, a hora de voltar.
