Por que o Brasil é um país feminicida?

Não é preciso muito estudo. Basta ir no Instagram de um assassino, do goleiro Bruno, por exemplo, e ver que, somente hoje, ele recebeu mais de mil elogios dos internautas brasileiros. “Ídolo”; “Merece ir para seleção”; “força, Bruno”; “O Brasil está com você”

É de embrulhar o estômago de qualquer pessoa honesta. Basta percorrer os comentários no Instagram do goleiro Bruno para sentir um desconforto profundo, quase físico. Ali não está apenas um homem condenado pelo assassinato brutal de Eliza Samudio; ali está um espelho perturbador de parte da sociedade brasileira que apoia o feminicídio. Entre mensagens de “força”, corações e elogios, forma-se um coro que parece decidido a esquecer, relativizar ou até inverter a história, como se a vítima fosse um detalhe incômodo e o algoz, um herói injustiçado.

Não se trata apenas de ignorância dos fatos, porque o crime é amplamente conhecido e documentado. Trata-se de algo mais inquietante: a disposição coletiva de perdoar a violência quando o agressor é homem, famoso, útil ao entretenimento e esporte, ou capaz de despertar nostalgia esportiva. Essa complacência não nasce do acaso; ela é filha direta de uma cultura que ainda naturaliza a brutalidade contra mulheres e frequentemente coloca as vítimas no banco dos réus, exigindo delas uma pureza e uma perfeição que jamais são cobradas de seus agressores.

Ao observar aqueles comentários, compreende-se com dolorosa nitidez por que o feminicídio segue como uma chaga aberta no Brasil. Não é apenas o criminoso que perpetua a violência; é a plateia que aplaude, que passa a mão na cabeça, que transforma um assassinato em nota de rodapé diante da lembrança de defesas difíceis ou de um passado esportivo. Cada elogio dirigido a Bruno não é apenas uma mensagem inocente na internet: é um gesto de apoio ao feminicídio que banaliza a morte de Eliza e enfraquece, ainda que silenciosamente, a repulsa social que deveria ser absoluta.

Há também algo perverso em funcionamento: a necessidade de preservar ídolos, mesmo que isso exija deformar a realidade. Para muitos, é mais fácil negar ou minimizar o horror do que aceitar que alguém admirado foi capaz de um crime monstruoso. Essa negação, porém, cobra um preço coletivo alto, porque transforma a memória da vítima em algo descartável e legitima a ideia de que a fama pode funcionar como uma espécie de absolvição moral.

O Instagram de Bruno, com sua enxurrada de aplausos, não é apenas a página de um condenado; é um recorte cruel do Brasil que ainda falha em proteger suas mulheres e em honrar suas mortas. Enquanto houver quem bata palmas para um assassino, haverá também o risco de que outras Elizas sejam reduzidas ao silêncio. E não há nada mais agressivo contra a vida de uma mulher do que uma sociedade que, diante de sua morte, escolhe aplaudir o assassino.

Alessandro Lo-Bianco

Fui repórter da Editora Abril, O Dia, Jornal O Globo, Rádio CBN e produtor executivo dos telejornais da Record. Estou ao vivo na RedeTV!, como colunista de TV do programa “A Tarde é Sua”, com Sônia Abrão. Também sou colunista do portal IG (lobianco.ig.com.br). Tenho 11 livros publicados e 17 prêmios de Jornalismo.

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